Como sequela da covid, Brasil pode ficar indiferente à vida como Bolsonaro. Por Leonardo Sakamoto

Bolsonaro em entrevista coletiva sobre a crise do coronavírus. Foto: Reprodução

Publicado originalmente no UOL:

Por Leonardo Sakamoto

Os Estados Unidos do irresponsável Donald Trump, a Rússia do autoritário Vladimir Putin, o Reino Unido do falastrão Boris Johnson, a Hungria do ultranacionalista Viktor Orbán, a Arábia Saudita do absolutista Salman Al Saud, a Israel do fundamentalista Benjamin Netanyahu, a Polônia do ultraconservador Andrzej Duda já começaram a vacinar sua população contra a covid-19. O Brasil de Jair Messias, que compartilha com eles visões de mundo, ainda não.

O que reforça que a demora do Brasil não é uma questão ideológica. É um projeto torto de um governo tecnicamente incompetente que submeteu a questão da saúde pública à batalha pela reeleição do presidente.

À medida que a pandemia avançou, líderes que desprezavam a doença mudaram de estratégia ao perceberem que o negacionismo de longo prazo poderia levar a um prejuízo, não apenas político pelo grande número de mortos, mas também pelo impacto negativo de uma economia deprimida.

Em alguns locais, a corrida pelo desenvolvimento de uma vacina própria se tornou, inclusive, estratégia de marketing geopolítico, como na Rússia. Em outros, diante da realidade que internou até primeiro-ministro, houve guinada de posições, como no Reino Unido.

Como sua natureza beligerante o torna incapaz de articular a federação em prol de um objetivo comum, Bolsonaro não preparou o país para a mais importante guerra de sua história. Abraçou o inimigo, defendendo que a melhor forma de para-lo é deixando que ganhe, infectando rapidamente a população para criar imunidade. Sim, Bolsonaro vem apostando na estratégia da “seleção natural”, com os mais fortes sobrevivendo – o que, de certa forma, é coerente com quem sempre foi.

Os nossos quase 200 mil mortos em decorrência desse projeto? “Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, como disse o presidente em 28 de abril. “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”, afirmou em 2 de junho. “Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas”, sentenciou em 10 de novembro. “Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida”, ladrou em 27 de março.

E, nadando contra a corrente, juntou-se a um pequeno grupo de governantes que recomendam vodka para tratar da moléstia. Com a diferença que, por aqui, nem álcool precisa, apenas a força do pensamento. “Quem é feliz não pega covid”, afirmaram assessores do ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, em registro de Malu Gaspar, da revista Piauí.

Em regiões do Brasil, a primeira onda se conectou à segunda, sem tempo de respiro, em muito por conta da irresponsabilidade do presidente da República. Se ele não tivesse jogado contra as quarentenas, elas teriam sido ainda mais efetivas e poderíamos ter retomado a vida quase normal ao menos por um período de tempo.

Porém, ao defender sua estratégia de infecção como solução (ele já disse que a imunidade decorrente do contágio era melhor que a das vacinas), Bolsonaro ajudou a detonar empregos e a economia.

Com o fim do auxílio emergencial, milhões de brasileiros estão saindo às ruas para procurar serviço. E, por mais que o país esteja registrando a recuperação de vagas formais, há 14,1 milhões que procuram serviço, mas não encontram, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua. Número que vai continuar a crescer, até porque a melhor estratégia que o governo tem para reduzir esse exército é flexibilizar ainda mais as proteções trabalhistas.

Bolsonaro conta com essa montanha de desempregados para pressionar o país, que está cansado de isolamento e distanciamento, a voltar à normalidade. Quer que a população proteste contra todo e qualquer político que coloque entraves a isso em nome da saúde coletiva.

As imagens dele, neste final de ano, servindo de exemplo para que pessoas se aglomerem vão nesse sentido. Vida normal, quem reclamar é frouxo ou mala. Faz um cálculo macabro, de que 200 mil mortos não são nada comparado a 14 milhões de desempregados ou 210 milhões de habitantes.

Aposta que muita gente vai se insubordinar, adotando seu discurso de que o combate à covid traz o caos porque impede as pessoas de trabalharem. Faz de conta que não sabe que não é a quarentena que atrapalha a economia, mas a doença por afastar trabalhadores infectados. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a irresponsabilidade de frigoríficos, que mantiveram trabalhadores se contaminando em linhas de processamento de carne, foi uma das principais responsáveis por espalhar a covid pelo estado.

E diante da incompetência de seu governo para a aquisição de vacinas, busca convencer parte da população que não precisamos de imunização, mentindo que elas não funcionam ou que colocam em risco a vida das pessoas. A solução, para ele, é ir para a rua pegar covid e quem morrer morreu, terceirizando os impactos pela crise a quem tentou salvar vidas.

O “Brasil Protegido pelo Home Office” precisa se lembrar de que a maioria dos trabalhadores está, neste momento, ao relento e precisa de mais ajuda do Estado para sobreviver. O “Brasil Acima de Todos”, que faz parte do 1% mais rico, precisa aceitar em ser taxado para financiar a subsistência de quem nada tem. “O Brasil do Zoom” precisa entender que uma massa de estudantes pobres, sem acesso a recursos, está ficando ainda mais para trás com o alongamento da pandemia. E o “Brasil Jovem das Grandes Baladas” precisa se lembrar, mesmo cansados de tudo, que a repercussão dos seus atos atinge empregadas domésticas, cozinheiras, garis, seguranças que não se divertiram nas festas com eles, mas morrerão como consequência delas.

Um processo de vacinação rápido ajudaria a equacionar isso, mas ele não virá, não em escala nacional.

O risco desse projeto de Bolsonaro que vem se mostrando resiliente é que o Brasil saia dessa crise mais à sua imagem e semelhança. Um país insensível à dignidade humana, com cada um lutando, como ele, por sua própria alegria e sobrevivência. E que se dane o resto.

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