Como seria um golpe sem Bolsonaro? Por Moisés Mendes

Jair Bolsonaro e os militares. Foto: PR

Publicado originalmente no blog do autor

Há um consenso entre os democratas. Bolsonaro conseguiu envolver os militares numa empreitada em que tudo, e não só a perspectiva ameaçadora de um golpe, conspira contra a imagem das Forças Armadas.

Como parecem estar à vontade, uma pergunta deve ser feita: quem, entre os generais aliados de Bolsonaro, estaria de fato preocupado em evitar falas, atos e gestos bruscos que comprometam a reputação de Exército, Marinha e Aeronáutica?

É possível que um general como Eduardo Pazuelllo, que assumiu a tarefa de fazer o serviço sujo das ‘novas’ estatísticas da pandemia, condenadas por todos os especialistas da área, contribua para a imagem do Exército como ministro interino meio permanente de Bolsonaro?

O que um general, que nada sabe de saúde pública, que nunca se envolveu com uma tarefa tão grandiosa como essa, faz num governo que se alia à peste ao invés de tentar juntar forças para combatê-la?

Está consagrado historicamente que ninguém sabe ao certo para que lado pendem os militares em circunstâncias nebulosas como a atual.

Tudo o que dizem sobre o desconforto entre militares da ativa é puro chute. Há desconforto? Quem mediu? Como se manifesta?

E tudo o que também asseguram sobre o apoio incondicional dos generais a Bolsonaro parece ser mero palpite. O que transpira é que as Forças Armadas podem estar mais perdendo do que ganhando ao avalizarem o desgoverno de Bolsonaro. Será mesmo?

Uma hipótese a considerar, levantada por videntes variados, é a de que os militares esperam a hora certa para dar o bote. E o bote pode ser uma tentativa de endurecimento ao lado de Bolsonaro, para que se reafirme a vocação golpista das Forças Armadas. Mas pode também ser algo sem Bolsonaro.

Um golpe com Bolsonaro teria a liderança de Bolsonaro? Seria possível estar sob o comando despótico de um tenente sem condições de liderar uma reunião ministerial?

E como seria um golpe sem Bolsonaro, sem a estrutura do Gabinete do Ódio dos filhos de Bolsonaro, sem a fidelidade da base das polícias militares (que seriam hoje mais bolsonaristas do que castrenses) e sem os milicianos?

Por isso cresce a suspeita do blefe do golpe, enquanto a imagem das Forças Armadas vai sendo submetida a julgamentos, que talvez nem preocupem generais tão hipnotizados pelo poder.

Hoje, é mais provável que um cabo num jipe esteja mais angustiado com a imagem da farda que veste do que um general num carro preto sentado ao lado e Bolsonaro? É de se perguntar e aguardar respostas possíveis com o que virá mais adiante.

O RECADO DE TOFFOLI

O presidente do Supremo, Dias Toffoli, vem dando recados de que não é para ninguém temer as ameaças de golpe. Já mandou um recado a Bolsonaro, para que se aquiete.

O que sempre se diz é quem Toffoli sempre foi o ministro do Supremo com a mais ostensiva tutela militar, sempre com um general por perto.

Pois se é assim, se o presidente do STF tem como se informar sem muitos erros sobre os humores dos generais, é bom ler o que o disse ontem sobre a controvérsia do cada vez mais famoso artigo 142 da Constituição:

“Não há lugar para um quarto poder para o (ou segundo o) artigo 142 da Constituição. As Forças Armadas sabem muito bem que o artigo 142 da Constituição não lhes dá o papel de poder moderador (….). Não podemos confundir os papéis daqueles que estão na ativa e sabem muito bem os limites da atuação das Forças Armadas e daqueles que estão, evidentemente, em um governo, e aí envolve, evidentemente, a defesa das políticas públicas que o governo democraticamente eleito busca implementar. É a Constituição Federal que governa a todos nós”.

É mais do que retórica, é uma informação. É possível ler a seguinte mensagem: não tenham medo da ameaça de golpe, porque o golpe é um blefe, para que a extrema direita mantenha sua turma acordada.

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