Como surgiu e como sumiu o Muro de Berlim

O MURO EM CONSTRUÇÃO, EM 1961

Em 13 de agosto de 1961, há precisamente 49 anos, começou a ser construído o Muro de Berlim, uma obra pavorosa que dividiu a Alemanha em duas por 28 anos. Em novembro passado, no aviversário de 20 anos da queda do muro, fui a Berlim fazer uma reportagem. Fiquei instantaneamente fascinado com o cosmopolitismo exuberante de Berlim e sua notável capacidade de se reerguer e se reinventar. Selecionei um trecho de minha reportagem que gostaria de compartilhar com os leitores do Diário.

O Muro de Berlim começou a ser construído em 13 de agosto de 1961. O objetivo era conter o crescente número de alemães-orientais que, ainda que ao preço de deixar para trás casas e empregos, optavam pelo outro lado, em que a economia era mais dinâmica e na qual não havia os detestados russos. A Alemanha estava desde o fim da Segunda Guerra dividida em duas – uma sob a órbita da União Soviética, a Oriental, e a outra, a Ocidental, alinhada com o que, no dicionário geopolítico daqueles dias, era classificado de “Mundo Livre”, liderado pelos Estados Unidos. Desde a divisão, cerca de 2,25 milhões de habitantes do lado comunista tinham se bandeado. Eram, na maior parte, jovens bem formados. A evasão era não apenas uma mancha na reputação de Berlim Oriental como uma ameaça à economia do país, pelo risco de escassez de mão de obra qualificada. O líder alemão-oriental, desde 1953, era Walter Ulbricht, um homem treinado na Rússia.

Foi ele que concebeu a idéia de um muro.

“Ninguém tem a intenção de erguer um muro”, dissera Ulbricht quando os primeiros rumores começaram a surgir. É a frase cínica pela qual Ulbricht é mais lembrado. Ulbricht tinha um passado homicida. Em 1932, pouco antes que Hitler tomasse o poder, Ulbricht tramara o assassinato de dois policiais berlinenses. Os comunistas alemães haviam decidido, então, que para cada homem morto dois inimigos seriam liquidados. Quem materializou muro formulado por Ulbricht foi um aliado seu que, mais tarde, desempenharia um papel pavoroso na Alemanha Oriental: Erich Mielke, a quem caberia o Ministério da Segurança, ou Stasi na forma abreviada. Inspirada na  primeira polícia política bolchevique, a sangrenta Checa, a Stasi se dizia “o escudo e a espada” não do país, mas do Partido.

A maciça troca de lados – nunca do Ocidente ao Oriente, sempre no sentido inverso – é que levou ao Muro de Berlim, em agosto de 1961, uma triste, agressiva e feiíssima obra unilateral. Tratada por um pequeno grupo da elite como a “Operação Rosa”, era algo tão secreto que nem sequer a KGB, a onisciente polícia política soviética, tinha ideia do que se tramava.

São particularmente dolorosas as imagens de pessoas acenando lenços para familiares ou amigos queridos do outro lado. No desespero de fugir, tentativas espetaculares se realizaram, e entre elas as mais dramáticas estavam nos túneis precários cavados sob o solo de areia de Berlim. Havia o risco de ser enterrado pela terra em plena fuga, e também o de receber tiros da polícia oriental, mas foram muitos os casos de sucesso.

O fim nasceu de um erro.

Era o dia 6 de novembro de 1989, e um líder da Alemanha Oriental, Günter Schabowski, estava na televisão. Cercado de microfones, ele concedia uma entrevista coletiva acompanhada avidamente por milhões de compatriotas. Perguntaram a ele se havia alguma perspectiva de facilitar o trânsito de pessoas na Alemanha então dividida em duas – uma sob a órbita da União Soviética, a Oriental, e a outra, a Ocidental, alinhada com o que, no dicionário geopolítico daqueles dias, era classificado de “Mundo Livre”, liderado pelos Estados Unidos.

COM UMA ESTÁTUA FAJUTA QUE COBRA 1 EURO POR FOTO, EM BRANDEMBURGO

O entrevistado, acuado menos pelos jornalistas e mais pelas circunstâncias extraordinariamente complicadas para a Alemanha Oriental, disse que sim. “Para quando?”, indagaram. “Já?” Ele, mal informado do que a cúpula comunista que governava o país decidira pouco antes sobre o tema e sem saber direito o que falar, aquiesceu. “Hum…, para já”, disse. Foi um erro. Não havia previsão nenhuma no lado oriental para destrancar as portas petrificadas que separavam as Alemanhas.

Tão logo ouviram a resposta equivocada de Günter Schabowski, centenas de milhares de alemães orientais correram ao Muro de Berlim. A pé ou em seus obsoletos Trabants, os carros de plástico e motor de dois tempos que se tornaram o símbolo móvel da estagnação da Alemanha Oriental, a multidão não queria outra coisa que não o direito que lhe fora subtraído 28 anos antes. Ali a esperavam seus compatriotas ocidentais, igualmente ansiosos pelo reencontro. Os guardas do Muro, que desde agosto de 1961 zelavam ferozmente pela separação entre os alemães, tentaram por alguns instantes evitar o inevitável.

Depois, foram testemunhas impotentes de um capítulo da história comparável à Queda da Bastilha.

Tão abruptamente quanto surgira, faleceu de múltiplas causas um dos monumentos mais tenebrosos, mais ignominiosos e mais sangrentos que o homem já construiu, o Muro de Berlim. Depois de ter matado 200 pessoas que tentaram transpô-lo de 1961 a 1989 e infernizado milhões de outras, o Muro de Berlim morreu numa jornada revolucionária em que a única vítima foi ele mesmo, posto abaixo a golpes de picaretas, martelos e o que mais os alemães encontrassem para se vingar, numa noite estrepitosamente gloriosa, dos odiados arames farpados e blocos de tijolo que numa extensão de cerca de 155 quilômetros os encerraram, tiranizaram e humilharam por tanto tempo.