Como uma jornalista espancada virou o emblema das manifestações na Ucrânia

tatiana chernovil
Manifestantes seguram cartazes com o rosto da jornalista agredida

A repórter ucraniana Tetiana Chernovil, conhecida por seus artigos pró-europeus, vem incomodando o presidente de seu país, Viktor Yanukovych.

E lá para aqueles lados gélidos das estepes, “incomodar” um presidente pode ser extremamente perigoso. A jornalista russa Anna Politkovskaya era uma crítica feroz da guerra da Tchetchênia e também “incomodava” sobremaneira o presidente Vladimir Putin. Foi assassinada em 2006, o que levou a manifestações de solidariedade na mesma Kiev da colega Tetiana.

Com suas reportagens publicadas no jornal Ukrainska Pravda alinhadas aos ativistas ucranianos que desejam a associação política e de livre comércio com a União Européia, Tetiana tornou-se um rosto conhecido entre as lideranças das gigantescas e bravas manifestações que ocorrem há mais de um mês em Kiev.

Ao pedir a saída do presidente Yanukovych (que prefere permanecer voltado para a Rússia), Tetiana mexeu com fogo.

Na noite da última terça-feira, véspera de natal, Tetiana Chernovil sofreu uma fechada em seu carro. Tentou fugir de ré mas foi perseguida e alcançada. Arrancada de dentro de seu veículo, foi espancada brutalmente, o que lhe causou uma concussão cerebral e vários hematomas e fraturas no rosto. Não matá-la pode ter sido apenas um aviso. Na mesma noite um outro líder ativista pró-europeu, Dmytro Pilipets, foi esfaqueado em situação mal explicada.

A repercussão está sendo intensa e joga mais gasolina na imensa fogueira ucraniana. Centenas de jornalistas e ativistas concentraram-se em frente ao Ministério do Interior depois do ataque a Tetiana, exigindo a renúncia do ministro Vitali Zakharchenko. “Nós não vamos permitir que Yanukovych lance uma campanha de terror contra os ativistas pró-Europa”, gritaram.

O ex-primeiro-ministro e oponente, Yulia Tymoshenko, que está preso por, bem, por ser oponente, emitiu uma nota desde a prisão dizendo-se indignado com a “agressão selvagem” e acusando o presidente Viktor Yanukovych de ser o responsável.

E o presidente?

Como não poderia ser diferente, condenou a agressão e ordenou uma investigação profunda. Para tal, nomeou quem? O mesmo ministro Vitali Zakharchenko, sobre quem Tetiana publicou um artigo com denúncias de corrupção (ela levantou a suspeita de que uma residência estaria sendo construída para o ministro com verbas públicas). Alguém mais está vendo conflito de interesses que comprometam a investigação?

Se uma banda de garotas como a Pussy Riot é condenada por gravar um clipe, se ativistas do Greenpeace ficam presos acusados de pirataria, não é de se estranhar que fazer jornalismo oposicionista seja atividade com risco de morte. Como todas as emissoras já têm prontas suas retrospectivas do ano, o atentado contra Tetiana Chernovil certamente não estará mencionado. Mas deveria. A existência de um lugar onde a mídia não é livre, deveria ser visto apenas em retrospectiva, jamais como “atualidade”.

O vídeo do cerco ao carro pode ser assistido aqui.

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