
O legado de Manoel Carlos, falecido neste sábado (10), aos 92 anos, vai além de suas novelas. Uma de suas obras mais lembradas, “Mulheres Apaixonadas” (2003), abordou questões sociais como o tratamento ao idoso, a violência doméstica e a violência urbana ganharam a visibilidade necessária para impulsionar mudanças legislativas no país.
1. Estatuto do Idoso
Em “Mulheres Apaixonadas”, a relação conturbada de Dóris (Regiane Alves) com seus avós, Leopoldo (Oswaldo Louzada) e Flora (Carmem Silva), foi um marco na representação de maus-tratos contra idosos, acelerando a tramitação do Estatuto do Idoso. A lei, que entrou em vigor em setembro de 2003, foi uma das mais importantes para a proteção dos direitos das pessoas com 65 anos ou mais. O episódio na novela ajudou a sensibilizar o Senado para a urgência da aprovação, culminando na sanção da lei proposta pelo senador Paulo Paim. O Estatuto da Pessoa Idosa, como passou a ser chamado em 2022, continua sendo uma das principais conquistas para a garantia de direitos dessa parcela da população.

2. Lei Maria da Penha
A novela também teve papel central na conscientização sobre a violência doméstica, especialmente através da personagem Raquel, interpretada por Helena Ranaldi. Ela vivia uma relação abusiva com o marido, Marcos (Dan Stulbach), o que trouxe à tona a necessidade urgente de uma legislação mais eficaz para proteger as mulheres contra a violência doméstica. Três anos após a exibição da novela, foi sancionada a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que fortaleceu as punições para os agressores e criou mecanismos de proteção para as vítimas. A lei se tornou um pilar fundamental na luta contra a violência de gênero e continua sendo um dos maiores legados legislativos da década de 2000 no Brasil.

3. Estatuto do Desarmamento
Manoel Carlos também tratou da violência urbana, um tema recorrente nas novelas do autor. Em uma das cenas mais emblemáticas de “Mulheres Apaixonadas”, os personagens Téo (Tony Ramos) e Fernanda (Vanessa Gerbelli) são vítimas de balas perdidas enquanto estão presos no trânsito.
A tragédia de Fernanda, que morre e deixa a filha Salete (Bruna Marquezine) órfã, gerou uma reflexão profunda sobre a violência armada nas grandes cidades. A cena foi um catalisador para a aprovação do Estatuto do Desarmamento em 2003, que visava reduzir a circulação de armas no Brasil e diminuir a violência armada. Apesar de revisões posteriores, incluindo a flexibilização da lei durante o governo Jair Bolsonaro, a regulamentação original teve um impacto positivo nas políticas de segurança pública.

4. MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas)
Outro aspecto relevante de “Mulheres Apaixonadas” foi a personagem Heloísa, interpretada por Giulia Gam, que vivia um relacionamento destrutivo e ciumento com seu marido, Sérgio. A novela trouxe à tona a importância do apoio psicológico para mulheres que se viam presas em ciclos abusivos.
O grupo MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas), criado para apoiar mulheres em relacionamentos prejudiciais, ganhou visibilidade com o retrato de Heloísa. O grupo, que ainda existe até hoje, tem unidades espalhadas por todo o Brasil, ajudando mulheres a sair de relacionamentos tóxicos e oferecendo suporte psicológico para superação.
