Como vivem as famílias que moram debaixo da ponte há 30 anos em MT

Atualizado em 29 de março de 2026 às 15:35
Regras estabelecidas sob a ponte do Rio Cuiabá. Foto: Divulgação

Há quase três décadas, famílias moram debaixo da Ponte Júlio Müller, em Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá, sobrevivendo de forma improvisada e sem políticas públicas que atendam suas necessidades básicas de moradia. Com informações do G1.

Localizado às margens do Rio Cuiabá, o ponto é marcado por casas construídas sob o concreto da ponte, com muitas famílias vivendo da pesca e da criação de pequenos animais. Embora a ocupação tenha começado como um refúgio temporário, ela permanece até hoje, evidenciando a carência de políticas habitacionais efetivas na região.

As casas, em sua maioria construídas de forma precária, são atendidas com energia elétrica e água encanada, mas enfrentam dificuldades com a falta de saneamento básico e a insegurança jurídica da ocupação.

Hoje, restam três famílias no local, um reflexo da diminuição da população original de nove casas. Apesar das condições difíceis, os moradores resistem devido à ligação emocional com o local e à atividade de pesca.

Os moradores, que preferem ser chamados por apelidos ou apenas pelo primeiro nome, são representados por figuras como “Jacaré”, que cuida da horta e dos animais, e “Nardo”, que atua como mediador entre os vizinhos. Vitória, que utiliza cadeira de rodas, também faz parte da comunidade, com seu marido participando da pesca.

A ocupação começou em 1994, quando 30 pessoas, em sua maioria pescadores, cruzaram o Rio Cuiabá de barco e se instalaram na área de Várzea Grande, após a proposta de realocação feita pela Prefeitura de Cuiabá, que ofereceu casas para as famílias que estavam na outra margem.

Embora muitos tenham aceitado a oferta, outros resistiram e seguiram para a margem oposta, onde permanecem até hoje. A área é considerada uma Zona de Preservação Permanente (APP) devido à proximidade com o Rio Cuiabá, tornando a ocupação irregular de acordo com o Código Florestal.

A prefeitura de Várzea Grande já reconhece o local como área ocupada, e o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) tem acompanhado as famílias, mas ainda não há planos concretos para regularização ou remoção.

Há mais de 20 anos, barracos numerados foram construídos sob a ponte do Rio Cuiabá. Foto: Divulgação

Mesmo com a falta de políticas públicas de habitação, a Prefeitura de Várzea Grande está em processo de captação de recursos para a elaboração do Diagnóstico Habitacional e do Plano Municipal de Habitação, instrumentos essenciais para o planejamento habitacional do município.

Tentativas de remoção ocorreram antes da Copa do Mundo de 2014, quando um projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) cogitou a retirada das famílias, mas o projeto foi abandonado e substituído por um BRT. Hoje, apesar de um número reduzido de moradores, a comunidade ainda é vista como ponto de trabalho para os pescadores da região, com uma forte resistência à presença de drogas ou outros problemas sociais no local.

A pesca continua sendo a principal fonte de renda, mas, como relatado pelos próprios moradores, a instabilidade econômica e as condições climáticas afetam diretamente a atividade. Durante o período da piracema, quando a pesca é proibida para preservação das espécies, muitos moradores não recebem o seguro-defeso, agravando a situação de vulnerabilidade social.

O cenário de pobreza é um reflexo de um problema mais amplo em Várzea Grande, que conta com mais de 35 mil famílias vivendo em situação de vulnerabilidade, segundo dados do Laboratório de Visualização e Georreferenciamento do Sistema Único de Assistência Social (GeoSUAS-MT).

Aproximadamente 73 mil famílias em Mato Grosso enfrentam dificuldades para acessar moradias adequadas, e muitas vivem em ocupações informais, em áreas irregulares ou de risco.

“O maior desafio é sensibilizar quem tem o poder da caneta. Muitas pessoas acabam ocupando áreas que não são delas porque não têm alternativa. Moram em beira de córrego, em área de preservação, correndo risco. E muitas vezes as autoridades passam e nada muda”, afirmou o diretor-presidente da Associação Comunitária de Habitação do Estado de Mato Grosso (ACDHAM), Emídio de Souza.

Em uma tentativa de resolver o problema, a Prefeitura de Várzea Grande anunciou, recentemente, o lançamento de um novo programa habitacional que visa regularizar mais de 8.000 imóveis em 25 bairros da região, com a expectativa de que as novas moradias sejam entregues em até dois anos e meio.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.