Confissões tardias sobre mulheres, tempo e mudança. Por Paulo Nogueira Batista Jr.

Atualizado em 6 de fevereiro de 2026 às 16:56
A primeira-dama Janja durante manifestação em Brasília. Foto: Divulgação

Para Lavínia

“Em questões de gênero, deve-se guardar o mais absoluto silêncio.” (Frase de grande sabedoria, de autoria desconhecida, que eu, como muitos, não consigo seguir)

A crônica que hoje publico foi escrita no finalzinho de 2025. Minha ideia era aproveitar a calmaria de virada de ano para fugir dos meus assuntos habituais. No entanto, o ataque à Venezuela, além das ameaças, pressões e violências contra Irã, Cuba e várias outras nações, conformaram o início de ano mais turbulento de que se tem notícia. Acabei publicando, nesse meio tempo, dois artigos sobre o quadro internacional (um em coautoria com o ilustre embaixador Bustani). Volto agora à crônica. Não que a situação tenha se acalmado – a superpotência delinquente continua fazendo das suas. Mas não tenho neste momento muito a acrescentar sobre o tema.

Enfim, eis o que queria dizer hoje – Eu mudei. Acredite, leitor ou leitora, não sou mais a mesma pessoa num ponto fundamental: na maneira de ver o sexo oposto. É verdade que Schopenhauer disse: “A maior prova de superficialidade é acreditar que as pessoas mudam”. E Roberto Mangabeira Unger acrescentou em comentário à frase de Schopenhauer: “É mais fácil mudar um país do que uma pessoa”. Boas frases, sem dúvida. Sempre gostei delas e citei a de Schopenhauer repetidamente. E, no entanto, por experiência própria, não acredito mais nelas.

Bem sei que, do ponto de vista estritamente subjetivo, a crença em alguma “essência imutável” funciona como uma espécie de tranquilizante contra a passagem vertiginosa e devastadora do Tempo (deve-se sempre capitalizar a palavra). Cultivamos a nossa suposta essência estável como forma de aplacar essa angústia. Mas a verdade é que nós também mudamos, inclusive aquela nossa essência supostamente profunda e constante.

Não quero que o leitor ou leitora me considere volúvel demais, mas devo dizer, a bem da verdade, que nos recém-publicados Estilhaços, há passagens que eu hoje renegaria taxativamente. Várias observações e piadas sobre a mulher, em especial. São bem datadas e envelheceram rapidamente. Talvez as retire em uma segunda edição.

Por exemplo, numa das crônicas do livro, achei bonito tomar Descartes como ponto de partida para um suposto “elogio” à mulher. No Discurso do Método, Descartes observou que o bom senso é uma qualidade comum a todos os homens, usando a palavra no sentido tradicional que abarcava homens e mulheres. E construiu toda uma filosofia em cima dessa premissa. Invoquei, também, Aristóteles e sua célebre definição do homem como “animal racional”.

Vejam vocês o que me ocorreu escrever – aplicadas à mulher, essas frases revelam todo o seu absurdo, pois a mulher se opõe radical e indisciplinadamente ao bom senso, ao razoável, ao racional. E acrescentei: nisso reside grande parte do seu charme e da sua importância histórica.

Em outra passagem, achei interessante recuperar a anedota de Churchill que, quando confrontado com a previsão de que as mulheres dominariam o mundo no ano 2000, teria respondido: “They still will, will they?”.

Winston Churchill, líder militar e ex-primeiro-ministro britânico. Foto: Divulgação

Parêntese: Churchill é uma figura histórica por quem a minha antiga admiração já não é a mesma. Embora tenha tido um momento heroico na resistência, às vezes quase solitária, a Hitler e à Alemanha nazista, foi também um imperialista linha dura, violento e racista. Os indianos que o digam. Mas não quero perder o fio da meada e fecho o parêntese.

Uma amiga (feminista light), ao ler algumas passagens dos Estilhaços sobre a mulher, disse, tolerante: “Você é um homem da sua geração, cabe relevar”.

Mas, não, justamente não! Não se deve ser um homem ou uma mulher da sua geração, um ser confortavelmente inserido na sua época. O que interessa é ser inatual, como dizia Nietzsche. Não se faz nada de original e duradouro sem ser contra, fundamentalmente contra a própria época. O homem ou a mulher representativo da sua geração não passa em geral de uma figura irrelevante, acomodada e cronicamente incapaz de inovar e criar. O que é o “espírito da época” ao final senão um amontoado de clichés e convenções? Sem jogá-las ao mar, sem desafiá-las, nada se pode fazer de novo. O inovador, para ser de fato inovador, sempre deve criar certa estranheza, resistência e repulsa. E deve aceitar a solidão que a inatualidade frequentemente acarreta.

Por isso, proclamo em alto e bom som: nos Estilhaços e em outras ocasiões, errei, de alto a baixo, e de modo estrondoso, no que disse sobre as mulheres. Mas estou exagerando um pouco: não de alto a baixo, mas em grande parte. Mantenho, por exemplo, o que escrevi sobre o efeito arrebatador da beleza feminina, algo que será válido, acredito, por todas as gerações até que a humanidade encerre a sua Odisseia na Terra. O dia em que o homem deixar de ser fascinado pela beleza da mulher será exatamente o nosso fim como espécie. Lavínia, minha companheira, não gostou deste parágrafo e avisou: “Prepare-se para apanhar”. Mesmo assim, ficou feliz de ver que a crônica está dedicada a ela.

De fato, eu estava soando antigo novamente. A mulher não quer (ou finge não querer?) ser admirada apenas pela beleza. Quer ser, entre outras coisas, uma profissional bem-sucedida e contribuir para o progresso social. Quer abrir espaço para si e teme voltar a ser enquadrada como elemento meramente decorativo. Não aceita mais a exortação de Nelson Rodrigues que sempre dizia: “Beleza também é serviço público!”.

Elas têm razão, não há a menor dúvida. E surge a dúvida atroz: minha mudança terá sido tão completa? Cabe talvez emendar o título para “Confissões de um dinossauro”?

Mas, não. Fica assim mesmo.

Paulo Nogueira Batista Jr.
Economista, escritor, autor do livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento estabelecido pelos Brics