Congresso e sociedade civil impõem limites a Trump na gestão da crise. Por Kennedy Alencar

Presidente dos EUA, Donald Trump, durante discurso na Casa Branca Foto: BRENDAN SMIALOWSKI / AFP/12-12/-2019

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Por Kennedy Alencar

Nos EUA, o Congresso e a sociedade civil estão ajudando bastante o presidente Donald Trump, porque o enquadram dentro de limites civilizatórios para lidar com a crise do coronavírus.

O Congresso está votando um pacote de socorro a trabalhadores, famílias e empresas que só pode ser comparado ao “New Deal” implementado pelo presidente Franklin Delano Roosevelt na Grande Depressão, nos anos 30 do século passado. São 11 trilhões de reais para proteger pessoas físicas e jurídicas _ o valor é uma vez e meia maior do que o PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil em 2019, que foi 7,3 trilhões de reais.

O “New Deal” foi um grande programa de investimentos públicos para empregar as pessoas e fazer a roda da economia girar após a quebra da Bolsa em 1929, o que desencadeou uma crise econômica de longo prazo.

A ação do Congresso desmontou o falso dilema que Trump tentou emplacar, entre escolher entre a economia e a saúde pública. Bolsonaro tentou copiar essa falsa escolha no Brasil e está se dando mal.

Os casos de covid-19 têm crescido de forma exponencial nos EUA. Até o fim da tarde desta quinta, havia mais de 1.160 mortes e mais de 80 mil pessoas doentes.

Na semana passada, o seguro-desemprego foi solicitado por 3,3 milhões de americanos. Na semana anterior, esse número girou em torno de 280 mil solicitações. É muito mais do que uma recessão. É uma parada brusca da economia.

Obviamente, se tivermos de fazer uma escolha, a resposta é fácil: priorizar a saúde pública. Mas com os recursos que o mundo capitalista tem acumulados, há como cuidar da economia também. Dá para fazer as duas coisas.

Haverá uma rediscussão do papel do Estado na economia, além das mudanças em comportamentos sociais no planeta inteiro. Hoje, na imprensa americana, existe um debate forte sobre o despreparo do sistema de saúde do país.

Nesse contexto, ganham força propostas como a do senador democrata Bernie Sanders, que defende um sistema público universal de saúde nos moldes do SUS brasileiro e de outros países, como o NHS do Reino Unido.

Como um país tão rico e poderoso é pego nesse contrapé? Faltam equipamentos médicos, por exemplo.

Testando limites

Trump deu uma pequena recuada na intenção de afrouxar as regras de isolamento social, mas não desistiu. Diz que ouvirá os cientistas, o que é bom.

Houve reação da sociedade e do Congresso à tentativa de suavizar essas regras a partir da próxima segunda-feira, quando vencerão os 15 dias da primeira recomendação federal para implementar a distância social (social distancing).

Mas Trump disse a governadores que estuda implementar regras diferentes para regiões do país menos afetadas do que Nova York, por exemplo.

Andrew Cuomo, governador de Nova York, é um líder que não doura a pílula e demonstra empatia ao mesmo tempo. É um exemplo numa hora em que faltam líderes. Bolsonaro e Trump não são líderes. Nesse sentido, Brasil e EUA padecem do mesmo mal.

O pico dos problemas em Nova York deverá ocorrer em duas semanas, mas há outras cidades que podem virar pontos de forte propagação, como Nova Orleans (Louisiana), Detroit (Michigan) e Los Angeles (Califórnia).

Alguns cientistas discordam da ideia de relaxamento de regras para algumas regiões, pois isso poderia facilitar a propagação do vírus para locais menos afetados hoje. Há uma pressão para que Trump obedeça aos cientistas.

E há cientistas renomados na Casa Branca, como o imunologista Anthony Fauci, que tem contido os ímpetos de Trump para afrouxar o distanciamento social, medida que tem dado algum resultado, sim.

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