Conselho investiga médicos que distribuem hidroxicloroquina no Recife com apoio de deputada bolsonarista

A deputada Clarissa Tércio com a ministra Damares Alves

Publicado no JC

O Conselho Regional de Medicina (Cremepe) está investigando a conduta de médicos que atuam no grupo denominado de “Doutores da Verdade”. Com o apoio da deputado estadual Clarissa Tércio (PSC), os profissionais de saúde estão realizando caravanas para atender as comunidades carentes com objetivo de promover o tratamento e a prevenção do novo coronavírus (covid-19) através da prescrição e distribuição de hidroxicloroquina.

Nesta segunda-feira (11), a parlamentar e os “Doutores da Verdade”, estiveram no bairro de Casa Amarela, disponibilizando o atendimento gratuito. De acordo com o Cremepe, por meio de nota, foi “instaurado expediente de apuração das informações referentes ao programa”. “O expediente corre em sigilo processual para não comprometer a investigação. Os expedientes são regidos pelo Código de Processo Ético – Profissional (CPEP) estabelecido pela Resolução CFM Nº 2.145/2016”, afirma o órgão.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) também foi acionado para averiguar a conduta dos profissionais sobre a prescrição e distribuição da hidroxicloroquina. Por nota, a Promotoria de Justiça da Saúde da Capital informou que, recebeu a notícia sobre a caravana e a atuação dos médicos e “oficiou o Cremepe para saber que providências o órgão tomou em relação ao fato”.

Procurada pelo JC, a deputada estadual Clarissa Tércio afirmou que diversas demandas relacionadas a área de saúde têm chegado de maneira intensa em seu gabinete. “Inclusive, criamos o canal Fiscalize PE, no sentido de aproximar a população e ouvir suas demandas buscando soluções junto às autoridades”, explica.

Sobre o “Doutores da Verdade”, a parlamentar ressalta que o projeto é coordenado pelo pneumologista, que fez residencia e mestrado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Antonio Aguiar. “Ele me procurou para dar apoio e voz ao projeto, tendo em vista a minha participação na Comissão de Saúde e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Pernambuco”, esclarece. Clarissa doou metade do seu salário de deputada estadual para comprar a medicação e distribuir nas comunidades  que receberem o projeto.

As ações pelo uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, tem sido amplamente defendido nas redes sociais da parlamentar. “Eu sempre acreditei que a medicação é uma aliada importante, quando usada precocemente, conforme relatam médicos experientes que fazem uso dela nessa pandemia, inclusive, o Conselho Federal de Medicina autorizou – com algumas restrições ao uso,(como todo medicamento tem) – bem como o no Estado de São Paulo, já está sendo ministrado o referido medicamento”, afirma.

O coordenador do “Doutores da Verdade” também foi procurado pelo JC, e afirmou que eles não foram notificados pelo Cremepe. “Talvez por se tratar de algo sigiloso, mas até onde eu saiba diminuir a dor e o sofrimento do próximo não é crime tipificado em lei”, disse.

Sobre a atuação do projeto, Antonio Aguiar explica que o grupo de médicos atua “baseado nas melhores evidências científicas” destacando a importância de iniciar de maneira precoce “nas pessoas com sintomas e ou sinais compatíveis com o diagnóstico da covid”. “Logicamente que todos os que nos procuram são avaliados na história clínica, exame físico, contra indicações e riscos ao uso”, pontua. (…)

DENÚNCIA

A Advogada Dani Portela, do PSOL, protocolou uma denúncia no Ministério Público de Pernambuco (MPPE), na ouvidoria do CREMEPE e na comissão de saúde da OAB-PE pedindo que fosse investigada a caravana chamada de “Doutores da Verdade” e a relação com a deputada estadual Clarissa Tércio (PSC) com a promoção do uso do remédio “hidroxicloroquina”.

De acordo com a publicação no Blog de Jamildo, a advogada afirma que essa divulgação feita pelos profissionais que atuam no projeto e pela parlamentar, deve ser investigada pelos órgãos competentes, para averiguar se estão de acordo com as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS). “A divulgação feita por médicos e por uma pessoa pública, sem que a eficácia do remédio tenha sido confirmada, pode dar uma falsa impressão de segurança, o que pode ser um risco para a população, pois serve de estímulo para o relaxamento das medidas de prevenção à doença”, explica Portela.

“Além da propaganda explícita do remédio como a solução para a cura da COVID 19, não há nenhuma atenção para a série de efeitos colaterais que podem ser causados pelo uso do medicamento”, cita. “Estamos diante do maior desafio que a nossa cidade do Recife já teve na sua história. A divulgação de informações, quaisquer que sejam elas, relativas à pandemia, só podem ser feitas seguindo a orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS). A OMS, inclusive, não indicou até o momento o tratamento da COVID-19 com a Hidroxicloroquina”, declara a advogada.

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