Cônsul venezuelano contrai covid-19 e tem atendimento médico negado no Brasil

Cônsul nomeado por Nicolás Maduro, Faustino Torrella Ambrosimo apresentava quadro avançado da doença – Causa Operária

Publicado originalmente no Brasil de Fato

Por Michele de Mello

O cônsul Faustino Torrella Ambrosimo, que comandava a sede diplomática venezuelana em Boa Vista (RR), testou positivo para covid-19 e teve seu tratamento negado nas unidades de saúde brasileiras, segundo denunciam as autoridades venezuelanas.

Em estado avançado dos sintomas da doença, Ambrosimo retornou à Venezuela nesta quarta-feira (24), pelo corredor humanitário aberto por autoridades de ambos países nas cidades Pacaraima (Roraima – Brasil) e Santa Elena de Uairen (Bolívar – Venezuela), já que, desde o dia 11 de março, a fronteira está fechada para a circulação de pessoas, permitindo apenas o trânsito de mercadorias.

Agora o cônsul venezuelano recebe atendimento em um hospital de campanha no estado Bolívar.

Desde 2019, os diplomatas nomeados pelo presidente Nicolás Maduro sofrem com a hostilidade do Estado brasileiro. Em julho, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) passou a reconhecer Maria Teresa Belandria, nomeada pelo deputado autoproclamado presidente Juan Guaidó, como embaixadora legítima da Venezuela.

Recentemente, os diplomatas venezuelanos conquistaram na justiça o direito de permanecer no Brasil durante a pandemia do novo coronavírus. Em maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso confirmou a decisão liminar que suspendia a expulsão de 34 diplomatas venezuelanos, nomeados por Maduro, pelo governo brasileiro.

Emergência sanitária

Com uma taxa de incidência de 980 pessoas a cada 100 mil habitantes o estado de Roraima é um dos mais afetados pela pandemia na região Norte. Até o momento, foram confirmados 10.803 casos e 259 falecidos, segundo a secretaria estadual de saúde.

Segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), existem cerca de 45 mil refugiados venezuelanos no Brasil. Destes, 33.311 residem em Roraima, seguido do Amazonas, que é lar de 8.400 pessoas.

Apesar de ser uma população numerosa, os imigrantes venezuelanos têm tido dificuldades em receber atendimento no território brasileiro.

Em novembro do ano passado, a Câmara de Vereadores de Boa Vista aprovou o projeto de lei (PL) 452/2019, que limitava em 50% o atendimento de estrangeiros na rede pública da capital. A proposta de autoria do vereador Júlio Medeiros (PTN) culpava “o aumento desenfreado de migrantes no estado de Roraima, o que veio a impactar em diversos setores na vida da população local, tais como saúde, educação e segurança”.  A lei entrou em vigor em janeiro deste ano.

Por ferir o princípio de acesso universal previsto na legislação do SUS e violar o direito de igualdade garantido ao migrante, a medida foi considerada inconstitucional pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), que derrubou a lei em fevereiro de 2020.

Xenofobia, desemprego e falta de atendimento médico são os principais motivos que levaram ao retorno de mais de 64 mil venezuelanos, vindos do Peru, Colômbia, Equador e Brasil. Do total, cerca de 80% infectados com o novo vírus.

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