A sociedade e os grandes criminosos segundo Balzac

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Balzac é Balzac. Sendo assim, é compreensível que tenha sido convocado, mais uma vez, pelo Diário para a série “Conversas com Escritores Mortos”. As frases abaixo foram extraídas do livro “Código dos homens honestos”.

Monsieur Balzac, o senhor é considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos – e também é conhecido por ter criado personagens excelentes. Vautrin é, particularmente, meu favorito. O que tem a dizer sobre ele?

Vautrin é um canalha – ou antes, um ladrão.

Isso quer dizer que o senhor o desaprova?

É claro que não. Os ladrões constituem uma classe especial da sociedade: contribuem para o movimento da ordem social; são o lubrificante das engrenagens e, como o ar, penetram em qualquer lugar; os ladrões são uma nação à parte, no interior da nação.

Estou confusa. Então o senhor aprova os ladrões?

Acho que é necessário, antes de tentar desvendar as astúcias dos ladrões, tecer sobre eles algumas considerações imparciais; talvez ninguém mais possa analisá-los sob todos os ângulos e com total sangue-frio. Mas certamente não serei acusado de querer defendê-los, pois isso seria mais que injusto. Afinal, não posso defender aqueles que podem, a qualquer momento, me roubar.

E quais seriam suas considerações imparciais?

O ladrão é um ser raro; a natureza o concebeu como uma criança mimada e despejou sobre ele toda sorte de perfeições: um sangue frio imperturbável, uma audácia a toda prova, a arte de aproveitar o momento exato, tão fugaz e tão lento, a agilidade, a coragem, uma boa constituição física, olhos penetrantes, mãos ágeis, fisionomia aberta e expressiva, todas estas qualidades não são nada para um ladrão e, no entanto, são consideradas como a soma das capacidades de um Aníbal, de uma Catarina, de um Mário, de um César.

Mas nem todos os ladrões são audaciosos, corajosos ou têm esse sangue frio imperturbável. Podemos, então, dizer que não estamos falando de todos os criminosos, e sim dos mais notáveis entre eles?

Há uma grande diferença entre um ladrãozinho qualquer e os grandes criminosos. O pequeno roubo é, mais exatamente, o seminário onde se recruta para o crime, e os ladrões de galinha não passam de maus atiradores do grande exército dos profissionais sem patente.

Há alguma diferença crucial entre eles?

O ladrão banal irá roubar sua carteira e sair correndo; o grande criminoso não se contenta com isso – seus métodos são sofisticados e elegantes, e consequentemente seu lucro é muito maior.

Então basta ao grande criminoso ter uma boa fisionomia, audácia, sedução e sangue frio? Não precisa ter um conhecimento da natureza humana, por exemplo?

Ele deve conhecer os homens, seu temperamento, suas paixões; tem que mentir com habilidade, prever os acontecimentos, avaliar o futuro, ser dono de um espírito ágil e agudo; tem que ter um raciocínio rápido, encontrar boas saídas, ser um bom comediante, bom mímico; tem que saber captar o tom e as maneiras das diversas classes sociais (imitar o funcionário, o banqueiro, o general, conhecer seus hábitos e suas características). E, acima de tudo, tem que ter imaginação, uma brilhante imaginação. Ele não é forçado a estar sempre inventando novos recursos? Para o ladrão, o fracasso equivale a uma condenação.

Mas, monsieur Balzac, levando em conta tudo o que o senhor disse, esse criminoso notável é um ser fora do comum, a quem pouco faltou para ser um grande homem. E o que impediu que isso acontecesse?

O resultado de tantos dons é, em geral, uma extrema propensão à indolência. Entre o objeto cobiçado e a posse, não vêem mais nada, entregam-se felizes ao mal, nele se instalam, a ele se habituam.

E como podemos reconhecer esses grandes criminosos?

Nunca desconfie de seu vizinho da esquerda, que usa uma camisa de tecido grosso, uma gravata branca e uma roupa limpa, mas de tecido barato; ao contrário, acompanhe com muita atenção os movimentos de seu vizinho da direita, de gravata fina e elegante, muitos berloques, suíças, ar de gente honesta e próspera, maneira desenvolta de falar; é este camarada quem vai roubar seu lenço ou seu relógio.

E o que fazer quando somos roubados por eles?

Oh, infelizmente não há nada a fazer. Se o seu brilhante desapareceu, não perca tempo em pedir contas a esse senhor. Inútil revistá-lo, nada vai encontrar; ele irá se fazer de ofendido e você acabará se humilhando à toa.

Mas e aqueles que entram no crime por gosto?

Estes são aqueles que Dr. Gall descreveu como infelizes cujo vício decorre de sua organização mental. Há, naturalmente, grandes criminosos que amam o vício e que o abraçam efusivamente; acho que estes entram na lista daqueles que entram no crime por gosto.

E os que não amam o vvício, e nem se sentem confortáveis com ele? Não sentem remorso?

Em alguns deles há remorsos crescentes antes que a voz da consciência se apague. A multidão, ao ver um homem no banco dos réus, o vê como um criminoso, o abomina; no entanto, esquadrinhando sua alma, um padre pode ver nascer o arrependimento. Que grande tema para a reflexão! A religião católica é sublime quando, em vez de virar o rosto com horror, abre os braços e chora com o pecador.

Seria certo afirmar que os ladrões sempre existiram e sempre existirão?

São o produto necessário de uma sociedade constituída. Na verdade, em todos os tempos, os homens sempre estiveram enamorados da fortuna. Todos dizem: “Hoje em dia, o dinheiro é tudo, quem tem dinheiro tem tudo.” Ah! Evitem repetir essas frases banais, passarão por tolos. Desde que o mundo é mundo, o dinheiro foi adorado e buscado com o mesmo ardor.

Para terminarmos nossa conversa, eu gostaria de perguntar se o único ladrão é aquele que rouba explicitamente.

Ora, todos procuram uma maneira de fazer uma fortuna rápida e sólida, porque todos sabem que, depois de adquirida, ninguém se lamentará; ora, essa maneira é através do roubo, e o roubo é coisa comum.

Como assim?

O comerciante que ganha cem por cento, rouba; também rouba o fornecedor que paga a trinta mil  homens dez centavos por dia, anota os ausentes, estraga o trigo misturando farelo para render mais; outro queima um testamento; outro adultera os impostos; outro inventa uma caixa de pensões: há mil maneiras de roubar. O verdadeiro talento consiste em ocultar o roubo sob uma aparência de legalidade: que horror que é apoderar-se do bem alheio, só o que vem de nós nos pertence, eis a grande astúcia. Os ladrões espertos são recebidos pela sociedade, passam por pessoas de bem.

Algo a acrescentar?

Os ladrões são como uma perigosa peste das sociedades: mas não se pode negar sua utilidade para a ordem social. Se compararmos uma sociedade a um quadro, veremos que são necessárias zonas de zombra e zonas de luz, não? Que seria de nós se o mundo fosse povoado exclusivamente de pessoas honradas, ricas, de bons sentimentos, tolas, piedosas, políticas, simples, dissimuladas? Seria um tédio mortal, não haveria mais nada picante. A humanidade entraria em luto no dia em que já não houvesse fechaduras.

 

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