
A convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026 deixou de ser um anúncio esportivo para se transformar em um grande espetáculo comercial. O evento organizado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) nesta segunda-feira (18), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, reuniu shows, lançamento de carro e até apresentações de PowerPoint em um formato que antecipou o clima da Copa nos Estados Unidos, Canadá e México.
Tradicionalmente, um evento do tipo consiste em uma entrevista coletiva simples: o técnico anuncia os nomes escolhidos e responde perguntas da imprensa. Desta vez, porém, Carlo Ancelotti entrou em cena após uma série de ações publicitárias e uma programação desenhada para televisão, redes sociais e parceiros comerciais. Nem mesmo o momento mais protocolar do futebol escapou da lógica americana do entretenimento permanente.
VEJA: Carlo Ancelotti fica incomodado com o show durante a cerimônia de convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo.
“O quê que estou fazendo aqui?” pic.twitter.com/VqYwTQqFsA
— Paladin 🎖 (@PaladinRood) May 18, 2026
O evento teve forte presença de patrocinadores. A Volkswagen, nova parceira da Seleção Brasileira, organizou uma ação promocional em que Ancelotti deixou o Museu do Amanhã em um veículo da marca rumo ao prédio da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Depois, o treinador seguirá de helicóptero para os estúdios da TV Globo, onde participa do Jornal Nacional hoje à noite.
O formato da convocação ajuda a ilustrar o modelo que a Fifa pretende emplacar no torneio. Os EUA construíram, nas últimas décadas, uma cultura baseada na mistura entre esporte e publicidade. No futebol americano, basquete e beisebol, esportes mais populares do país, o jogo frequentemente divide espaço com apresentações musicais, ações comerciais e conteúdo para televisão. Qualquer espaço é utilizado para incluir anúncios, como deve acontecer com as “pausas técnicas” que foram implantadas este ano no Brasil.
A principal vitrine desse modelo será justamente a final da Copa do Mundo de 2026. Pela primeira vez na história do campeonato, a Fifa confirmou a realização de um show no intervalo da decisão, reproduzindo uma lógica semelhante à do Super Bowl, a final da NFL. O presidente da entidade, Gianni Infantino, afirmou neste ano que o espetáculo terá cerca de 20 minutos e contará com artistas internacionais, embora a Fifa ainda não tenha anunciado oficialmente as atrações.

A mudança representa uma ruptura preocupante com a tradição histórica da Copa. Com a adoção de um show musical no momento de maior audiência do torneio, a Fifa aproxima definitivamente a Copa da linguagem dos megaeventos de entretenimento americanos, em que o espetáculo ao redor do jogo passa a ter o mesmo peso da própria partida.
A lógica americana de soft power transforma qualquer grande evento em uma plataforma de publicidade, consumo e cultura pop, exportando um modelo em que o esporte precisa funcionar como experiência multimídia permanente. A convocação da Seleção Brasileira organizada pela CBF é uma pequena amostra do que está por vir.