Convocação de Ancelotti envolve empresa alvo de operação da polícia; entenda

Atualizado em 18 de maio de 2026 às 17:43
Palco montado pela CBF para a convocação final para a Copa do Mundo. Foto: Divulgação

A cerimônia de convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo, realizada no Museu do Amanhã, teve produção da R2B Produções de Eventos, empresa que já foi alvo de investigação da Polícia Civil do Distrito Federal por suspeitas de irregularidades envolvendo patrocínios públicos, incentivos fiscais e superfaturamento. O evento organizado pela Confederação Brasileira de Futebol contou com estrutura cenográfica montada para a convocação feita pelo técnico Carlo Ancelotti.

Segundo a Agência Sportlight, a investigação da Polícia Civil, que resultou na Operação Praia de Goia em 2018, apontava indícios de lavagem de dinheiro, crimes contra a administração pública e favorecimento à empresa em contratos ligados ao Governo do Distrito Federal, ao Banco de Brasília e à Terracap.

Os investigadores apontaram que a Terracap cedeu espaços públicos por valores abaixo do mercado para eventos promovidos pela R2B. O vice-presidente da CBF, Gustavo Dias Henrique, ocupou cargos de direção na Terracap entre 2015 e 2019.

Ele é considerado um dos nomes mais influentes da atual gestão da entidade. Em nota, a CBF afirmou que Gustavo não participou de contratações envolvendo a R2B enquanto esteve na estatal e declarou que a escolha dos fornecedores seguiu critérios técnicos e operacionais.

Documentos mostram que o BRB destinou R$ 3,6 milhões em patrocínios à R2B entre 2023 e 2025. A empresa também foi responsável por outros eventos recentes da CBF, como ações da CBF Academy e camarotes no carnaval. A operação acabou arquivada pela Justiça do Distrito Federal em 2023, e a CBF afirmou que não comenta “ilações sobre processos já arquivados”.

Contrato da R2B. Foto: Reprodução

Além da R2B, a convocação teve decoração do Studio Traços Arquitetura. Há ainda uma ligação societária indireta entre integrantes das duas empresas. Segundo os documentos da investigação, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram movimentações em dinheiro consideradas atípicas e suspeitas de sobrepreço em equipamentos utilizados em eventos patrocinados.

Escutas telefônicas citadas pela Polícia Civil indicavam proximidade entre sócios da R2B e integrantes da Terracap. Os investigadores apontaram suspeitas de favorecimento em cessão de espaços públicos para eventos como “Na Praia” e “Carnaval no Parque”. Em uma das conversas interceptadas, os empresários demonstravam preocupação em evitar desgaste para a Terracap durante negociações relacionadas a eventos concorrentes.

A R2B também opera eventos em áreas administradas pela Terracap, incluindo espaços próximos ao Estádio Mané Garrincha e à orla do Lago Paranoá, em Brasília. A empresa possui estrutura societária formada por holdings e participações cruzadas entre sócios e investidores.

A CBF alegou que suas contratações seguem regras internas de governança e afirmou que a complexidade da convocação exigia fornecedores com experiência compatível. A R2B, o Studio Traços, a Terracap e o BRB foram procurados pela reportagem, mas não apresentaram respostas até a publicação do material.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.