Copa do Mundo: acabou a magia. Por Guilherme Bittar

Torcida na partida entre Camarões x Brasil na Copa do Mundo de 2014. FOTO: Jefferson Bernardes/ Vipcomm

POR GUILHERME BITTAR, jornalista

O ano era 1970 e o Brasil buscava o tri na Copa do México. Mas Ítalo, personagem do filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, embora assistisse aos jogos, relutava em torcer pela seleção.

Afinal, era o auge do Regime Militar, capítulo nefasto da história nacional. Vinhetas tentavam unir o país: “Vamos juntos vamos, pra frente Brasil. Salve a seleção”. Mas para que Brasil exatamente as pessoas torciam e até que ponto a conquista não daria ainda mais força à Ditadura?

Contudo, quando o gol saiu e o apito final soou, Italo não se conteve e saiu para o abraço.

O ano agora é 2018 e eu me sinto um pouco como aquele personagem. Só não sei ainda se vou comemorar – racionalmente, não, mas quem sabe o momento me traia. De uma coisa tenho certeza: a camisa amarelinha não estará no meu figurino (só o uso do diminutivo me causa mal-estar).

Não há clima. Não para mim. É como me sinto. Apesar do ufanismo irritante propagado por narradores esportivos e agendado pela cobertura da imprensa (que tem interesses no evento), a Copa não salvará o país. A conquista não representa esperança. O Brasil não estará unificado de repente, a partir das gingas e gols de Neymar.

A máscara caiu para o maior evento esportivo do mundo, ao menos para boa parte dos brasileiros, conforme mostram diferentes pesquisas que apontam o desinteresse recorde pela competição. Tudo bem, estamos falando de futebol e isso era para ser algo leve, sem mau humor. Acontece que não é nem nunca foi apenas futebol. Não com a Copa. Não no Brasil.

Dessa vez, nossas mazelas são tantas que a Copa não é capaz de dar um refresco para a triste realidade brasileira. Um país com uma legião desempregados, com uma democracia ferida por um golpe, um estado sob intervenção militar, um assassinato por motivações políticas não elucidado, uma recente greve de caminhoneiros que parou o Brasil. Um país no qual poderes que deveriam ser independentes tentam se sobrepor uns as outros e em que a Constituição é reescrita conforme a conveniência. Li um artigo sobre esse desencanto e o articulista brincava: “Quem é que sooobe?!”. O tomate, o limão, a batata.

Sim, assistirei à Copa e aos jogos da seleção, pois gosto bastante de futebol. Esportivamente, é uma competição interessante, embora venha perdendo apelo edição após edição. Há algumas décadas, era necessário uma Copa para reunir os melhores craques do mundo. Hoje, eles estão todos na Europa e os times do Real Madrid, Barcelona e PSG são melhores que qualquer seleção. A Liga dos Campeões tem um nível técnico superior à Copa. Ver compatriotas jogando juntos a cada quatro anos virou uma curiosidade. Como esses caras que mal se conhecem, sendo que alguns deles mal se lembram que são brasileiros, empanturrados de grana, se saem com pouco tempo de treinamento e num período de convivência intensa?

Não é fácil perder o encanto com a Copa. Minha memória está associada à competição, a qual utilizo para organizar a ordem dos fatos. Eu lembro nitidamente da Copa de 1994, a primeira que assisti. Lembro dos momentos, de onde eu vi os jogos, da escalação completa, do Bebeto balançado os braços sinalizando um bebê a caminho, da cotovelada do Leonardo, da “bomba” de Branco que atingiu um fotógrafo.

Lembro de 1998, os minicraques de uma marca de refrigerantes, o corte de Romário, a crise de Ronaldo. De 2002 e uma equipe desacreditada que ganhou o título, com a genialidade de Rivaldo e a volta por cima do “Fenômeno”. Das demais eu também me recordo, mas não de maneira tão nítida. Não esqueço, infelizmente, a de 2014, essa sim, apesar das graves limitações técnicas da equipe, nós deveríamos ter ganhado. Quem sabe daqui a alguns anos eu me lembre da edição de 2018 como a Copa em que eu, de certa forma, reneguei.

Eu costumava achar chato quem criticava a Copa e se opunha à seleção. A frase “torço só pelo meu time” me parecia uma falta de espírito e de sensibilidade social – tanto quanto torço só pelo “Brasil”. Mas essa camisa amarelinha que foi apropriada por manifestantes e por grupos políticos, e que é símbolo da uma entidade corrupta, definitivamente não me representa e não será meu uniforme.

Eu sei que muita gente vê a Copa e a seleção com o otimismo que eu mantinha outrora. Eu respeito e sei que para esses eu serei aquele chato que antes me incomodava. Mas, sinto muito, até por mim mesmo (por não conseguir mais desfrutar dessa doce ilusão), não estou nesse time. Não ainda. As paixões, no entanto, mexem com a gente de uma forma inesperada. Por isso, não me julguem se, assim como o Italo, eu gritar gol. Nem que seja de algum adversário.