“Coronavírus: Bolsonaro vai à multidão e manda para o inferno os cuidados sanitários”, diz TV belga

Bolsonaro na Rádio-télévision belge de la Communauté française

Jair Bolsonaro ganhou as eleições usando um slogan com a palavra Deus, mas sua imagem na Europa, e principalmente da sua gestão da crise do coronavírus, viraram uma referência diabólica.

Pelo menos são os elementos de linguagem que aparecem na manchete da rádio e TV belga RTBF: “Bolsonaro cumprimenta a multidão, vão para o inferno os cuidados sanitários”.

Sob uma imagem do presidente brasileiro mascarado no meio de um público, a rede de radiodifusão da Bélgica observa a contradição: “Jair Bolsonaro cumprimenta a multidão de simpatizantes enquanto o país já conta mais de 16 mil mortos”.

Para a RTBF, o governo foi marcado por uma “demissão que deixou uma mancha”, numa referência ao ex-ministro da Saúde Nelson Teich, uma analogia de sons entre o sobrenome do demitido e a palavra francesa “tache”, que significa mancha.

“Jair Bolsonaro continuou o fim de semana criticando as medidas de confinamento e pregando o uso da hidroxicloroquina, sem dizer uma palavra sobre as vítimas da epidemia no Brasil”.

A Rádio-télévision belge de la Communauté française observa que o Brasil é o “quarto país do mundo em número de pessoas infectadas (241.080), e conta oficialmente 16.118 mortos, dados que os cientistas consideram amplamente subnotificados em relação à realidade”.

As referências a um cenário infernal pelo bolsonarismo num Brasil vítima da pandemia também se veem no jornal francês Le Monde, que também repercute a demissão de Teich e o desastre do governo brasileiro.

“Por trás da sobriedade da partida, é no entanto o fogo latente, um incêndio”, diz reportagem de Bruno Meyerfield na publicação francesa.

“Desde vários dias, como seu popular predecessor Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich se viu em conflito aberto com o chefe e Estado. Apagado, confuso, encurralado pelos militares, ele estava porém longe de ofuscar Jair Bolsonaro. Mas as divergências eram muito fortes, entre um ministro que recomendava o confinamento e um presidente que pregava a reabertura generalizada do país (e que, domingo, ainda não havia nomeado um sucessor num ministério crucial)”.

Por sua vez, o correspondente do Le Monde no Rio de Janeiro minimiza o protesto contra o confinamento em Brasília, chamando-o de “pequena multidão de partidários”.

Numa referência à ameaça do presidente de não pagar os funcionários públicos, o jornal ironiza a relação do político com a religião. “Querendo se mostrar campeão dos desempregados e pequenos patrões, Jair Bolsonaro concentrou seu discurso nestes últimos dias sobre a crise econômica, num tom deliberadamente apocalíptico”.

A referência religiosa também se sobrepõe na reportagem principal da versão espanhola do El País: “O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, junto a membros de um grupo religioso, na terça-feira em Brasília”.

El País

Na imagem, os fiéis mascarados olham e apontam para o céu, assim como seu messias, de costas para o público leitor. A reportagem expõe que “73 mil militares receberam indevidamente os 600 reais” pagos por um governo “cada vez mais encurralado”, que “negocia com vários partidos que encarnam a velha política que tanto atacava, partidos que oferecem seu apoio em troca de cargos gestores de suculentos orçamentos”.

Uma leitura da cobertura europeia sobre a política de Bolsonaro sob uma ótica religiosa permite perceber que o diabo é um político, que ele pode ser eleito e (des)governar um país. O diabo pode ser brasileiro e atender pelo nome de Messias. Alguma dúvida?

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