“Corremos o risco de uma versão caricata de Berlusconi”

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Publicado no Unisinos.

 

O impasse político, na falta de organizações partidárias que deem vazão às expectativas da sociedade, pode levar a consequências indesejadas, segundo o sociólogo Gabriel Cohn: a ascensão de um político aventureiro no próximo ciclo eleitoral. Segundo o professor, o atual cenário de agitação social no Brasil, no qual se inclui a manifestação contra a presidente Dilma Rousseff marcada para domingo, tem dificuldade em articular propostas de fato políticas, porque os dois principais partidos capazes de operar a passagem das paixões pessoais às propostas coletivas, o PT e o PSDB, estão mais preocupados em brigar entre si.

Cohn, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, se diz pessimista com o atual cenário, que interpreta à luz do processo de redemocratização do país, iniciado na década de 80 e ainda longe da conclusão. Para ele, os últimos anos apresentam uma “freada histórica” no processo, o que provoca frustrações. “Pode escrever: estamos fritos e enfarinhados”, afirma, seguido de uma gargalhada, e explica seu pessimismo: “Há três coisas que me irritam, mas das quais não tenho como me livrar. O PT, o Corinthians e o judaísmo”.

O segundo governo Dilma já começa desgastado e desarticulado, enquanto a sociedade está em ebulição, a economia em queda, os escândalos se acumulando…

Tem um acúmulo de problemas e eventualmente uma condensação. Temos sinais de uma freada histórica no processo de redemocratização. Havia algo em andamento. Socialmente, economicamente, politicamente. A saída da era Lula para a era Dilma não é uma continuidade, frustrando expectativas e temores de todos os lados. Há uma fermentação, uma acumulação de problemas objetivos e reações a eles na forma de irritação, ou de palavras-valise, que carregam tudo, como “corrupção”.

Nesse contexto, como aparece a série de protestos que o país tem testemunhado?

Vejo o contraste entre duas modalidades. De um lado, uma unidade ilusória, em que as pessoas saem de verde e amarelo, falando em defesa da pátria – o que é um equívoco, porque não é isso que está em jogo. Então a saída é concretizar a reivindicação de maneira estreita e abstrata: fora Dilma, antiPT, ou com um tema vago, como a corrupção. Do outro lado, uma fragmentação real, com inúmeras tendências e formas de reivindicação, como temos visto na esquerda. Acontece que em nenhum dos dois lados existe uma aceitação plena e apoio ao governo, porque ele é incapaz de plasmar a confiança de qualquer setor da sociedade. A fermentação social gira no vazio.

Seria uma fermentação sem decantação?

Não se atinge o nível político do debate ou da ação. O que se aprofunda é uma mescla de ressentimento, rancor e ódio, sem objetivo definido. Se não tomarmos cuidado, a deriva conservadora vai se acentuar de uma maneira assustadora. Vejo riscos de um cenário italiano, em que a quebra do sistema partidário abre o caminho para figuras como a de [Silvio] Berlusconi. No Brasil, corremos o risco de caminhar para uma versão caricata de Berlusconi.

O próprio sistema político não consegue mais dar respostas?

O problema é que os dois partidos mais estruturados e programáticos estão com problemas sérios. Frei Betto disse, há alguns dias, que o PT corre o risco de virar uma espécie de simulacro do PMDB. Sim. E o PSDB também corre esse risco. Se esse cenário se concretizar, teremos simulacros do PMDB, nada mais consistente do que ele, e o próprio PMDB, que tem a capacidade de sentir os ventos da história mais que seus concorrentes, promovendo a deriva muito acentuada para a direita. Eles estão avançando na busca de uma nova clientela política, que sentem no ar que está sendo gerada. Os outros dois partidos não se revelam capazes de reagir porque estão engalfinhados numa falsa polaridade, uma briga ridícula que lembra arquibancada.

O senhor falou em nova clientela política…

Amplas parcelas da população foram trazidas ao jogo econômico, político, e à presença social, por meio de políticas públicas, nas últimas duas décadas. Essas pessoas vão assumir uma posição estratégica do ponto de vista também político. São portadoras de uma série de expectativas e exigências que não podem ser frustradas. Se não estiver assegurada a continuidade desse processo, as pessoas vão reagir. E não se sabe aonde sua frustração pode levar.

Por que isso ocorre?

A transição democrática nunca teve a consistência que a gente imaginava. É preciso ver se não se mantêm certos mecanismos, certas formas de conduta, típicos do período autoritário. O verde e amarelo, por exemplo, me incomoda porque é preciso ter clareza de que estão defendendo posições que podem ser partidárias, podem ser corporativas, mas não é a pátria. E é um discurso idêntico ao dos anos 70. Não conseguimos mudar suficientemente esse discurso. A participação política, a cidadania, são processos de aprendizado, que fazem parte da redemocratização. É importante que haja manifestações. Por isso não entendo a reação do governo federal.

Depois do 15 de Março?

Dois dias antes, havia ocorrido uma outra manifestação. Eles responderam a uma só. Sendo que a primeira, com todas as deficiências que possa ter, colocava itens programáticos. Queremos isso, não queremos aquilo. Dá para dialogar. É importante que as pessoas estejam na rua. É incrível como antigos militantes da esquerda ficam assustados quando veem gente na rua.

Quem parece estar ganhando musculatura com a crise é o Congresso.

É um risco real neste momento. Muito real. Hoje, parece que estamos vivendo uma espécie de parlamentarismo adoidado. O presidente da Câmara fala como se fosse presidente da República.

Por enquanto, a estratégia da oposição parece consistir, mais uma vez, no “sangramento” gradual.

É um equívoco enorme do PSDB pensar que um fracasso de Dilma vai dar a eles uma chance. Nenhuma! Pode escrever. Bloquear um governo é uma tragédia! Daqui a quatro anos, não quero imaginar qual vai ser o cenário, mas já sei que não vai dar tucano, mesmo se não der petista. Não sei quem será. Talvez o senhor [Eduardo] Cunha. Veremos.

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