
Circula desde ontem que jornalistas estrangeiros foram presos em Caracas por ordem do governo. Não há nomes, o que preocupa, mas a informação é atribuída ao Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa da Venezuela.
Já li notícias em que sites brasileiros tentam confirmar a notícia com agências internacionais, mas não recebem informação de volta. À noite, as notícias eram de que teriam sido libertados.
Por que foram presos enquanto cobriam a posse dos deputados da nova legislatura em Caracas? Precisamos saber por que e quem são os profissionais.
O que se sabe é que, até agora, a cobertura da imprensa internacional depois do sequestro de Maduro é precária. Um dos argumentos usados é este: a polícia chavista reprime jornalistas. É sempre assim, em qualquer lugar.
As polícias, as milícias e os ativistas de quem está no poder e é questionado reprimem qualquer cobertura em guerras de todo tipo. Jornalistas trabalham em ambientes hostis e perigosos quando há dois lados em conflito.
Muitos não desejam que eles estejam ali. Quem trabalha numa boa é quem faz cobertura de shows, quermesses e festas de Réveillon.
Guerra é jogo pesado. Dizer que jornalistas não entram na Venezuela porque há repressão é um argumento a ser respeitado, mesmo que não exista guerra. Mas esse pretexto não pode ser obstáculo permanente para o jornalismo.
Se fosse, José Hamilton Ribeiro e Carlos Alberto Kolecza não teriam entrado no Vietnã. Não existiria a cobertura da revolução russa. Não haveria nada sobre a Segunda Guerra.
Conflitos violentos acionam escolhas dramáticas: vou ou não vou? Vou até onde? Convivi em Zero Hora com colegas que decidiram ir. Humberto Trezzi foi à Líbia, em 2011, quando da guerra civil que levaria à queda de Kadafi, e enfrentou situações terríveis.
O carro em que viajava com três jornalistas franceses fugia da perseguição de forças pró-Kadafi, numa estrada da região de Ras Lanuf, e acabou capotando. Trezzi sofreu ferimentos e quase perdeu o olho esquerdo.
Luiz Antonio Araujo foi cercado por manifestantes pró-Hosni Mubarak, numa praça do Cairo em 2011, no Egito, espancado e levado para um galpão, onde achou que iria morrer. Foi saqueado e perdeu todos os documentos. Era a tal Primavera Árabe. Mubarak foi obrigado a deixar o governo.
Em 2009, Rodrigo Lopes conseguiu furar um bloqueio e entrou na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, em Honduras, onde estava o presidente deposto Manuel Zelaya. Dormiu no chão por uma semana no prédio cercado por manifestantes contra o governo, de onde ninguém entrava e ninguém saía.
É assim que funciona. Hoje, os correspondentes de guerra dos grandes veículos são mais cautelosos. Mas os jornalistas continuam morrendo em zonas de conflito.
Mais de 70 já morreram em Gaza, sem muita repercussão na imprensa mundial, porque não eram das grandes agências internacionais.
Sempre lembrando que a Venezuela foi atacada pelo neofascismo americano, que sequestrou Maduro e foi embora. E o país não está em guerra civil, como Trump e a Globo desejam.
