“Corrupção não escandaliza em tempos de vacas gordas”: o economista Gilson Schwartz no DCM

 

Levy
Levy

 

 

O professor e pesquisador Gilson Schwartz tem uma extensa formação que inclui duas graduações na USP, em economia e ciências sociais, além de mestrado e doutorado pela Unicamp e pós-doutorado na Universidade de São Paulo. É também blogueiro no site da revista Exame.

Schwartz atuou como jornalista, foi economista-chefe do BankBoston sob a gestão Henrique Meirelles, antes de virar consultor do BID. Ajudou a criar, dentro do Instituto de Estudos Avançados da USP, o projeto de pesquisa Cidade do Conhecimento em 1999 e trouxe a iniciativa Games For Change de Nova York para São Paulo em 2011. É um dos poucos economistas a abordar a importância dos jogos eletrônicos em suas pesquisas.

O DCM entrevistou Gilson Schwartz para entender suas críticas ao ajuste promovido pelo ministro Joaquim Levy, além dos problemas ideológicos de economistas que insistem no desmonte do estado durante as crises econômicas.

Em um texto recente, você diz que é um erro atrelar o ajuste fiscal às chamadas pedaladas do governo Dilma. Como deveriam ser feitas as reformas em nossa economia, na sua opinião? 

Há um debate sobre o modelo econômico brasileiro, sobre a chamada “nova matriz macroeconômica” que seria a “herança maldita” de Guido Mantega. Isso envolve a tropicalização do estado do bem-estar social e ainda sobre as opções geopolíticas que passam pela economia política do petróleo, da água e da biomassa. São debates abertos e opções políticas mal cicatrizadas que explicam o tiroteio no escuro de propostas de “ajuste fiscal”.

Nós já temos até PhDs em Brasil que pontificam em universidades estrangeiras discutindo detalhes dos benefícios previdenciários brasileiros. Dá a impressão de que eles cobiçam ocupar a cadeira do Joaquim Levy. Eu ouso destoar desse coro dos descontentes pois, em minha visão, nosso principal problema  é a “falsificação” do sistema de preços desde 2012, ancorando a inflação em remendos típicos de ciclos políticos e agravando o desequilíbrio essencial no sistema de preços relativos, a taxa de câmbio.

Esse fator ameaça a estabilização de preços como meta estrutural de longo prazo. Como fazer uma maxidesvalorização cambial, desengessar os preços relativos domésticos e ainda fazer a lição de casa realinhando incentivos e subsídios? Ninguém é insano a ponto de negar que parte do desequilíbrio de preços relativos, que inclui o diferencial entre taxas de juros de bancos públicos e as taxas de mercado, tem origem fiscal. Mas daí a transformar a correção de preços e reinserção da economia brasileira no comércio internacional em crise estrutural do Estado vai uma longa distância, teórica, prática e ideológica.

Sobre a qualidade da nossas instituições de gestão das finanças públicas, e mesmo vigilância da corrupção, as evidências que citei em meu post no blog da Exame são de um trabalho científico com método econométrico que avalia o sistema brasileiro. Esse levantamento compara com a suposta eficácia maior do controle da coisa pública pelo Estado de exceção que foi ditadura militar brasileira. A democracia saiu ganhando dentro dessa pesquisa acadêmica.

Você qualifica os cortes nos gastos públicos como uma “ideologia de grupos com grande poder” que influenciam inclusive a mídia. Existe uma camada social de rentistas?

Num momento de recessão e alta dos juros, o rentista preocupa-se obviamente com a origem da receita que fará o serviço da dívida pública, ou seja, a fonte de sua renda. É o superávit nas contas públicas. Esse é o conflito distributivo central, mas não é o único. A gritaria é geral e multifacetada. Para eles, extrair renda do governo parece uma solução equânime, distribuída por meio de fórmulas matemáticas e atuariais capazes de prever com exatidão a solvência e a sobrevivência de cada um.

Não sou contra o corte de gastos ou o aumento da eficiência da máquina pública. Como sempre, o momento de crise acentua o conflito distributivo. Quando alerto para o canto de sereia da narrativa conservadora que manda fazer “sacrifícios” e “apertar o cinto”, não é por querer prolongar a farra do consumo com crédito a perder de vista sem garantias, não é uma ojeriza a poupar para o futuro ou pagar a conta dos excessos recentes.

O forte do rentista e dos economistas que repetem os mantras do ajuste fiscal estrutural, muitos a serviço do rentismo especulativo, é o plano de curto prazo, é a hidráulica keynesiana, um pensamento de funilaria econômica. Do meu ponto de vista, a questão do crescimento é equacionada com a correção no sistema de preços relativos e o próximo ponto de equilíbrio acontecerá num nível mais elevado de crescimento econômico, produtividade e transparência fiscal e financeira.

É uma visão pragmática e liberal. O grito desesperado por uma reforma do estado e reversão do incipiente governo de bem-estar social tropicalizado no Brasil é reacionário e pouco afeito à ordem democrática. Isso já é visível entre os economistas. Os mais sérios já percebem os efeitos positivos da megamáxi cambial e lembram da incrível plasticidade e velocidade de recuperação da economia brasileira. Ou seja, olham preços relativos e alocação dos fatores de produção, não apenas planilhas financeiras ditadas pelo rating das agências de risco financeiro.

Você separa a corrupção que está sendo apurada na operação Lava Jato da crise econômica. Por quê?

O debate é expressão do conflito distributivo, uma questão estrutural e que diz respeito à definição no longo prazo do tipo de sociedade que desejamos do ponto de vista de inclusão social, urbanidade, competitividade, inovação, direitos humanos, entre outros valores. É uma discussão legítima e deve ser feita sempre abertamente. Não considero o pensamento conservador viciado ou medíocre, ele apenas tem lado e frequentemente é tão anticientífico quanto a vulgata marxista.

Outra coisa é a corrupção, seus efeitos econômicos e políticos. Se ainda estivéssemos no auge das commodities e com grau de investimento e o Petrolão viesse à tona, quero crer que estaríamos todos igualmente escandalizados e envergonhados. O esgotamento de um ciclo de consumo com âncora cambial e crédito farto nada tem a ver com maior ou menor corrupção. Resta saber se a corrupção escandaliza tanto nos tempos de vacas gordas, mas essa é uma questão moral e não econômica.

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Gilson Schwartz

 

Em sua opinião, em que medida a corrupção agrava a situação e a saúde da economia brasileira?

É difícil de quantificar. Até na Petrobras houve meses de controvérsia para estimar o impacto e até agora nem todo mundo ficou convencido. Há ações na Justiça americana e isso apenas envolvendo uma única empresa. Seja qual for o nosso “quantum” de corrupção, pela dimensão dos processos envolvidos, pelo tamanho do país, uma taxa de câmbio artificialmente valorizada queima centenas de vezes mais dinheiro, empregos e renda que a corrupção mais deslavada.

O mesmo vale para uma taxa de juros em estado permanente de “overshooting”. Agora câmbio ou juros errados num país com muita corrupção em postos estratégicos do Estado é o pior cenário possível.

Como você avalia o primeiro mandato Dilma? Foi a primeira gestão de Dilma responsável por esta crise econômica ou ela vem de trás, nas duas gestões de Lula?

Há três processos com temporalidades distintas que se sobrepõem na conjuntura atual. O ciclo mais curto é de natureza estritamente política, tem a ver com a inércia que o instituto da reeleição injeta na economia. O ciclo político é a expressão natural da atração fatal entre governante candidato e extensão populista de políticas de inclusão. Quando funciona, é sabido que o “day after” é geralmente de “overshooting” do freio de arrumação.

Nem Dilma, nem Lula inventaram o ciclo político e é razoável acreditar que é um processo inevitável sobretudo nas democracias. Outro processo, mais complexo, é o esgotamento do ciclo de crescimento mundial após a crise de 2008, que só agora está de fato batendo nos BRICs, sobretudo China e todo o modelo de divisão internacional do trabalho dos últimos 50 anos. Todos os “milagres” parecem agora menos dignos de fé. Esse é um ajuste mundial que já pode ser caracterizado como uma década perdida, em escala internacional.

Entre o ciclo político de curto prazo e o ciclo mais longo das transformações mundiais, vejo a Era Lula como um início de novo modelo de desenvolvimento e organização do Estado cujo sucesso depende ainda de reformas. O sistema está estressado e não está esgotado. Deu pane, mas não pânico.

Você diz que quem opõe recessão econômica a ajuste fiscal ou é ignorante ou tem má-fé. Basta então um ajuste de preços? A crise é menos complicada do que aparece?

Acho a crise bem menos complicada do que parece, ao menos do ponto de vista econômico. O ajuste de preços inclui perdas salariais e é bom explicitar isso. Mas o Brasil competitivo, com a casa arrumada nos gastos contidos e receitas organizadas, não está condenado à recessão e ao desmonte irrefletido do estado.

Você acredita que a academia – e a USP, por exemplo – pensa de uma maneira diferente do mercado financeiro e dos economistas que são consultados pela imprensa? Por quê?

A academia tem mais diversidade e tempo de pensamento e produção. Cuidado, não estou a falar de “qualidade de pensamento”. Eu mesmo já fui economista-chefe num banco e sei que muitas das nossas melhores inteligências trabalham em instituições financeiras. O tempo do mercado, no entanto, é o curtíssimo prazo. A referência comportamental dele é o instinto de manada e o interesse em jogo é patrimonial e creditício. Nada de intrinsecamente abominável, mas condiciona, limita e inibe outros vieses. Ainda que obviamente atenda a interesses de clientes, milhões de clientes mundo afora.

Acadêmicos pensam com menos estresse, tem tempo e interesse por processos de longo prazo, os chamados “datasets” mais complexos. No máximo, eles arriscam a recusa de um “paper” e não a evasão em massa de clientes em pânico porque o governo pode dar um calote a qualquer momento.

Voltando para a situação econômica, como você avalia a tendência do governo em taxar serviços como Netflix e Whatsapp? E a proibição do Uber em São Paulo?

É querer tratar a febre controlando o termômetro. Há uma nova lógica na emergência de serviços digitais que o modelo tributário criado ao longo da civilização analógica é incapaz de captar. Sim, esses são exemplos de que o Brasil precisa de sérios ajustes no sistema tributário e no modelo de Estado para fazer o “catch-up” com a economia da informação e a sociedade do conhecimento. Parecem casos localizados, insignificantes, e de fato ainda são, mas já revelam uma tendência que obriga a repensar nossa cunha fiscal.

Acompanhei o lançamento de um celular chamado Quantum Go, feito com a Positivo. O aparelho está sendo produzido com custos reduzidos e vendas na internet. O empresariado brasileiro deve pensar em modelos de negócio que abusem da tecnologia para redução de custos?

Tecnologia reduz custos, aumenta a produtividade e mais tecnologia certamente tornará o Brasil mais competitivo. Mas também nesse caso a incidência de impostos está sob pressão. Acaba de ser assinado um importante pacto fiscal global pela tecnologia de informação e comunicação e o Brasil ficou de fora. Essa é a questão a meu ver central. Não adianta estimular uma nova matriz macroeconômica se não houver também sincronia e consistência com uma matriz sócio-tecnológica. Se o consumo cresce mais rápido que a nossa oferta de tecnologia, a pressão fiscal e cambial é incompatível com um equilíbrio macroeconômico de longo prazo.

Por fim, o senhor acredita que a presidente cairá com a atual crise política? Se cair, será por culpa da conjuntura econômica ou por falhar em sua articulação no governo?

Acredito que o sistema político sai renovado e o mandato presidencial será honrado sim. Não sou filiado e nunca fui a qualquer partido político.

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