Covas, esperteza e estelionato. Por Gilberto Maringoni

Bruno Covas. Foto: Reprodução/Facebook

Publicado originalmente no seu perfil de Facebook

COVAS, ESPERTEZA E ESTELIONATO

Bruno Covas não é o primeiro e nem o último governante a praticar um estelionato eleitoral. O autoaumento de salário e o corte na gratuidade de transporte público para usuários acima de sessenta anos foram cometidos em período do ano que se tem como morto. Deve ter se achado muito esperto. Mas os atos ficarão inesquecíveis, em especial o golpe na tarifa, que se renovará por anos a fio a cada giro de catraca em ônibus, metrôs e trens, graças à operação casada realizada com João Dória.

Estelionatos eleitorais são ataques à democracia e ao voto como instrumento de mudança. Representam a traição de relações de confiança entre eleitor e eleito.

A construção da decisão do votar neste ou naquele não é algo simples na cabeça do eleitor. Valem não apenas promessas de ocasião, mas laços de proximidade entre as duas partes. É uma relação sobretudo pessoal, mesmo que distante. Voto porque conheço, voto porque um amigo conhece, voto porque quem conheço conhece, voto porque o pastor, o ator, o meu médico ou alguém que sabe mais do que eu conhece, voto porque o pessoal da lista de zap da família, da escola ou da igreja conhece. Se eles conhecem é porque confiam. E gosto do que o candidato fala, também.

Trair essas teias – emaranhados de subjetividades, racionalidades e afetos – é ação dificilmente reparável. Exemplos históricos nos batem na cara. Os estelionatos eleitorais de José Sarney (PMDB, 1986), FHC (PSDB, 1998) e Dilma Rousseff (PT, 2014) inviabilizaram seus partidos como forças nacionais e garantidoras da democracia. Todas as três agremiações seguem com forte presença na vida política, mas perdem a capacidade de serem ordenadoras da institucionaldade. Ou seja, deixam de lado seu papel dirigente.

Ao quebrar a promessa de não descongelar preços no auge do plano Cruzado, Sarney desmoralizou seu partido. O PMDB saído daquele pleito ainda dirigiu a constituinte (1987-88), mas colheu um resultado pífio nas eleições presidenciais de 1989. Ulysses Guimarães, o político mais influente dos anos 1970-80, obteve míseros 4% dos votos, com 22 minutos diários de tempo de TV. Dali em diante, o PMDB perdeu sua coesão nacional, fenômeno que se acentuou após a morte do Sr. Diretas, em 1992. A agremiação se tornou uma federação de oligarquias regionais sem projeto definido.

Com o PSDB se deu o mesmo. Apesar de ter disputado quatro segundos turnos presidenciais com o PT (2002-2006-2010 e 2014), a legenda se acabou com a performance miúda de Geraldo Alckmin em 2018. Sua composição interna mudou e a sucessão geracional a levou para as mãos de gente como Dória, que a conduz ainda mais à direita. Não tem figura nacional que a unifique e encolhe paulatinamente a cada disputa.

Talvez o caso mais dramático seja o do PT. O partido nunca teve um projeto nacional claro. Basta, para isso, examinar seus quatro governos federais, ancorados num liberalismo com mais ou menos lustros sociais. No entanto, entre todos, era o partido que apresentava a base social mais definida, construída em quatro décadas de admiráveis iniciativas junto a comunidades trabalhistas e populares. A ruptura entre discurso desenvolvimentista e prática contracionista em 2014-16 levou ao afastamento abrupto de boa parte dessa base, que não sustentou o governo diante da campanha golpista. Seus resultados eleitorais são minguantes. O PT corre também o risco de perder sua coesão nacional e se tornar um arquipélago de frações locais.

Bruno Covas – repita-se, em associação com João Dória – decidiu repetir tais rumos e deu uma banana para o eleitorado, contando com a fraca memória coletiva. O governador já sentiu um pedaço do tranco diante da reação à sua bizarra viagem a Miami. Se refletissem sobre a História recente, talvez não fossem atropelados pela própria esperteza. É, evidentemente, cedo para fazer qualquer prognóstico, numa conjuntura nacional dramática.

Mas o preço a pagar pode ser alto.

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