CPI da lacração não prende mentirosos e vai ajudar a eleger gente como Pazuello e a Capitã Cloroquina. Por Kiko Nogueira

Pazuello e Mayra Pinheiro, a Capitã Cloroquina

“Se Deus não existe, tudo é permitido”, disse o devasso Ivan Karamazov.

A CPI da Covid virou um terreno baldio em que bolsonaristas mentem à vontade porque sabem que nada lhes acontecerá. Vale qualquer coisa.

De que adianta Renan Calheiros abrir sessão citando o julgamento de Goering no Tribunal de Nuremberg se os depoentes têm licença para enganar à vontade?

Qual o sentido da comparação? Fazer bonito para o Twitter.

Não há uma régua ética, moral ou legal na comissão. A cloroquina continua sendo defendida por senadores como se sua eficácia ainda fosse disputada.

É como se o advogado de Eichmann dissesse que, dependendo do caso, câmara de gás funciona. Então tá certo. Next!

Em dois dias de show, o patético Eduardo Pazuello inventou todo tipo de cascata para proteger o ex-chefe.

No domingo, tripudiou sobre a comissão passeando de moto no Rio de Janeiro, onde foi ovacionado. O Exército analisa três saídas para ele após participação no ato. Faz-me rir.

Omar Aziz quer levá-lo de volta. 

Dá ibope. A cada declaração dessas, Aziz ganha manchetes e seu nome viraliza. Vale o mesmo para Randolfe e os demais colegas, inclusive do PT.

Mayra Pinheiro, a Capitã Cloroquina, mentiu onze vezes, segundo agência contratada pelo Senado (sim, agora uma empresa recebe para fazer um serviço que deveria ser dos assessores que pagamos).

Enquanto isso, tinha o currículo — mais esburacado que queijo suíço — elogiado pelos parlamentares ao vivo. Ela é tudo, menos boba. Foi candidata. Presidiu sindicato. 

É tão política quanto qualquer um dos que a inquiriram. Deu o recado dela para um público que não se importa se ela fala ou não a verdade.

Aquilo não deveria ser um debate. É um inquérito. Tem força de polícia.

Tanto o Código Penal quanto a legislação que regula as CPIs estabelecem que é crime “fazer afirmação falsa” como testemunha. A pena é prisão em flagrante. Chico Lopes, ex-presidente do BC, e Celso Pitta foram em cana.

Mas, como ninguém segue as regras, tudo é permitido. Wajngarten abriu a porteira e a boiada passa.

Os senadores estão interessados na lacração de olho em 2022. Não é só despreparo.

Vão eleger a Capitã Cloroquina e o General Cagão. Os mortos de covid-19 seguem nas mãos dos muito vivos.