Craques da seleção se manifestam sobre conjuntura do Chile e apoiam reivindicações populares

Imagem: reprodução

Do Portal Trivela

POR LEANDRO STEIN

Durante as três últimas noites, o governo chileno impôs um toque de recolher a diversas cidades. O país arde em chamas desde sexta-feira, quando desataram os protestos estudantis contra o aumento no preço do metrô e dezenas de estações em Santiago foram incendiadas. O parlamento até congelou a tarifa, na tentativa de enfraquecer o movimento, mas a repressão do governo de Sebastián Piñera alimentou a revolta popular e os incidentes se multiplicam. Os próprios números do estado apontam a 15 mortos, “todos associados a queimas e saques de centros comerciais”, conforme a versão oficial. Enquanto isso, o Instituto Nacional de Direitos Humanos contabiliza 1420 detidos, dentre os quais 131 menores de idade. São 84 pessoas feridas por armas de fogo e 12 denúncias de tortura.

Por razões mais do que óbvias, o futebol está longe de ser a prioridade dos chilenos no momento. A rodada do final de semana acabou suspensa e os organismos responsáveis ainda discutirão a retomada nesta semana, o que provavelmente não acontecerá tão cedo. A própria Conmebol também indicou sua preocupação com a final única da Copa Libertadores, marcada no Estádio Nacional de Santiago para 23 de novembro. E diversos jogadores importantes da seleção manifestaram seu posicionamento diante do que ocorre no país.

Símbolo da Roja nesta década, Gary Medel foi um dos primeiros a falar sobre a situação. “O descontentamento do Chile é evidente. Espero que as autoridades ouçam o povo e parem de brincar com ele. É hora de se pronunciarem e deixarem o silêncio para que a violência não siga!”, analisou o defensor, em suas redes sociais. “Uma guerra necessita de dois lados e aqui somos um só povo, que deseja igualdade. Não queremos mais violência. Precisamos que as autoridades digam que vão mudar para resolver os problemas sociais. Elas falam de delitos, e não de soluções ao problema subjacente”. O veterano ainda usou hashtags como “Chile desperto” e “sem mais abusos”.

Charles Aránguiz, por sua vez, questionou um pouco mais a postura dos manifestantes. “Aplausos para todos os que tiveram culhões para manifestar-se pacificamente e reivindicar seus direitos. Não apoio nenhum tipo de violência, nem vandalismo. Espero que tudo chegue a um bom término”. Alexis Sánchez complementou: “Aceito as reivindicações por um Chile melhor, mas pacificamente e sem destruir os bens que todos necessitamos. Desta maneira, prejudicamos a nós mesmos. Quem mais sofre são as crianças, que não entendem as coisas que se passam por culpa dos adultos. Devemos estar mais unidos que nunca por um Chile melhor. Peço por acordos e soluções”.

Mais próximo à ideia de Medel, o goleiro Claudio Bravo cobrou o governo diante do caos social. “Onde estão os líderes do nosso país? O que mais nossa gente precisa esperar para poder escutar soluções? Só necessitamos de um líder que fale claro e leve nosso país à calma. As pessoas querem soluções e ninguém as disse claramente”, escreveu, esclarecendo não apoiar a violência. “Nunca apoiaremos a violência nem a destruição. Só queremos um país melhor a todos”.

Bravo aproveitou a ocasião também para questionar as privatizações. “Venderam às empresas privadas nossa água, luz, gás, educação, saúde, aposentadoria, medicamentos, estradas, florestas, o salar do Atacama, as geleiras, o transporte. Algo mais? Não será muito? Não queremos um Chile de alguns poucos. Queremos um Chile de todos”, pontuou. “Agora é o momento das respostas, das soluções. O país quer escutar boas notícias. As pessoas continuarão gritando a todo pulmão os seus direitos e necessidades. Mas a violência ou a destruição não nos representa e não nos levará à solução. Cuida do que você ama”.

Arturo Vidal indicou seu apoio à manifestação popular, por mais que também se contraponha à violência: “Força, meu Chile querido! Os políticos têm que escutar o povo quando nos fazemos sentir. As pessoas estão passando muitas necessidades e estamos dizendo basta! Sigamos manifestando pacificamente, por favor sem violência, sem saques. Sem nos machucarmos! Rezo para que meu Chile querido esteja melhor. Políticos, por favor escutem o povo de uma vez! Queremos soluções já! Um abraço forte a todos os chilenos, estejamos juntos e vamos sair em frente como sempre”.

Durante o final de semana, a primeira divisão do Chile não teve jogos, mas algumas partidas nas divisões de acesso aconteceram. Dentre os principais clubes do país, apenas a Universidad Católica seguiu treinando normalmente nesta segunda. A Universidad de Chile atrasou o início de suas atividades e o Colo-Colo suspendeu o treino. Além disso, há casos de jogadores envolvidos diretamente nos entraves. Sebastián Varas, atacante da Unión Española, ganhou folga após varar a noite ao lado de vizinhos para proteger seu condomínio, temendo saques.

Já na Católica, o meio-campista Ignacio Saavedra, considerado uma das maiores promessas do clube, se uniu ao movimento estudantil nos protestos. “Não tenho muito conhecimento de política ou coisas assim, mas se tiver que falar sobre questões mais controversas ou de contingência e estiver informado, vou fazer. Venho de uma família em que sempre se fala de política, meu irmão fez parte de movimentos estudantis. Fico com muita raiva quando você opina e te dizem ‘mas se você é jogador, não pode opinar’. Todos os futebolistas têm opinião, como as demais pessoas. É muito importante saber o que você pensa”, declarou ao jornal La Tercera, em maio. Um pensamento felizmente compartilhado por outros colegas de profissão.

 

 

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