Cristãos repudiam uso oportunista da religião e a “manipulação” de Bolsonaro

Atualizado em 13 de outubro de 2022 às 11:59
O presidente e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), durante visita a Aparecida
Foto: Reprodução/Marcos Corrêa/Presidência da República/Divulgação

A passagem do presidente Jair Bolsonaro pela Basílica de Aparecida, em São Paulo, nesta quarta-feira (12), Dia de Nossa Senhora Aparecida, foi marcada por críticas no meio cristão ao uso oportunista da religião na data. A exploração da fé na campanha do candidato à reeleição também foi alvo de comentários do arcebispo do santuário, dom Orlando Brandes. Sem citar Bolsonaro nominalmente, o religioso afirmou que o país precisa vencer muitos “dragões”, como a fome, o desemprego, o ódio e a mentira.

O arcebispo também lembrou da covid-19, citando-a como um dos dragões já vencidos no Brasil. A fala do religioso faz alusão a uma passagem do Livro do Apocalipse, em que Maria, Mãe de Jesus, vence o mal, representado pelo dragão. A ocasião também foi marcada pela hostilização de bolsonaristas contra a imprensa e Dom Orlando no local.

“Temos muitos dragões que ela vai vencer. O dragão que é o tentador, o dragão que já foi vencido, a pandemia. Mas temos o dragão do ódio que faz tanto mal, da mentira. E a mentira não é de Deus é do maligno. E o dragão do desemprego, da fome, da incredulidade. Com Maria vamos vencer o mal e dar prioridade ao bem, à verdade e a justiça que o povo merece. Porque tem fé e ama Nossa Senhora Aparecida”, disparou Dom Orlando.

Bolsonaro explora a fé

Um dia antes, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), principal entidade católica do país, publicou nota lamentando o que classificou como “intensificação da exploração da fé e da religião como caminho para angariar votos”. O documento não cita diretamente nenhum candidato, mas saiu dias após a ida de Bolsonaro ao Círio de Nazaré, no Pará, no último domingo (9).

Na ocasião, a Arquidiocese de Belém, responsável pelo evento, disse não desejar e nem permitir qualquer utilização de caráter político ou partidário das atividades do Círio. Em entrevista à Rádio Brasil Atualo frei Marcelo Toyansk Guimarães, assessor da Comissão de Justiça e Paz da CNBB Sul 1, destaca a necessidade de desconstruir esse tipo de “manipulação” que afeta as pessoas ao envolver a fé na política. “Eu vejo que o governo atual faz esse desserviço mesmo de uso das pessoas, não é simplesmente propor”, lamenta o frei.

Cristãos repudiam uso político

O uso da religião como ferramenta política também é repudiado por fiéis, como a religiosa Anna Maria Orlando. Para ela, figuras, como a do presidente da República, instrumentalizam a fé a serviço da política partidária ao usar o nome de Deus para atrair os cristãos. “Ele tenta angariar e atrair cada vez mais os cristãos, tanto evangélicos e agora também os católicos, se colocando como intermediário entre a fé do povo simples, humilde, e do povo cristão e achando que ele também é o guia moral e espiritual”, contesta.

O aposentado Miguel Fernandez também defende que a religião e a política não devem se misturar. “Eu entendo que Cristo não gostaria disso. Ele não aceitaria uma coisa dessa porque é o seguinte, fazendo isso, tem uma hora que tem que pender a religião e sai da pauta religiosa para fazer assuntos que não pertencem à religião”, observa. As costureiras Roseli da Silva e Nina de Castro compartilham das mesma opinião. Mas defendem que a igreja tenha voz em determinadas ocasiões. “Eu acho que religião e política não devem se misturar. Mas também não deve se omitir sobre o assunto, ou ter medo e receio de falar sobre”, explica Nina.

Estratégia de desvio 

Na mesma nota em que repudia o uso da fé e da religião como ferramenta eleitoral – como faz Bolsonaro –, a CNBB afirma que a manipulação religiosa desvirtua os valores do Evangelho. Desse modo, tira o foco dos principais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados no país.

O padre Júlio Lancellotti, da Paróquia de São Miguel Arcanjo, em São Paulo, reforça que o foco da campanha eleitoral deveriam ser as propostas dos candidatos para áreas como saúde, educação e moradia.

“Acho que uma coisa que temos que ter claro é de que a eleição é para cargos executivos e legislativos, e não para líderes religiosos. Porque a eleição é para discutir políticas públicas, saúde, fortalecimento do SUS, acesso à moradia e acesso à educação. Nós não temos que discutir nas eleições a religião dos candidatos, questões que são de cunho religioso. É para discutir as questões da res pública, das coisas públicas”, garante o padre Júlio.

Texto publicado originalmente em Rede Brasil Atual 

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