Crítica: Duas Irmãs, Uma Paixão

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Reza a lenda que o poeta, escritor e filósofo alemão Johann Christoph Friedrich von Schiller, considerado um dos fundadores do Romantismo Alemão e do Classicismo de Weimar ao lado de Goethe, Wieland e Herder (e que neste Duas Irmãs, Uma Paixão é vivido por Florian Stetter), viveu um intenso triângulo amoroso consentido com as irmãs Caroline (Herzsprung) e Charlotte (Confurius) von Lengefeld, casando-se com a segunda, a mais nova, para abrandar o falatório da comunidade em que vivia e conseguir manter-se próximo de ambas sob o protecionismo da própria mãe das garotas (Messner).

É um tema ousado para um longa épico ambientado no fim da Europa aristocrática, portanto, mas que o diretor Dominik Grag aborda de maneira decepcionantemente burocrática ao tentar emular os romances de Jane Austen levados às telas por Joe Wright.

Candidato alemão a uma vaga no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015, Duas Irmãs, Uma Paixão tem início com um longo – e inútil – prólogo em que Charlotte é enviada à casa de uma tia em Weimar para aprender os modos aristocráticos a fim de transformar-se em uma dama da corte e arranjar um marido rico que possa salvar sua família da falência iminente.

Não se apaixonando por nenhum dos seus pretendentes (e decepcionando a todos por se valorizar dessa maneira apesar de seu baixo “valor de mercado”), a garota acaba conhecendo o desajeitado poeta amador Friedrich, que passa a cortejá-la. A partir de uma cena em que precisa ser aquecido nu pelos corpos de Charlotte e Caroline após tentar salvar um cachorrinho de um afogamento, começa a desenvolver uma proximidade com as duas e a corresponder-se simultaneamente (de maneira literal, escrevendo com as duas mãos ao mesmo tempo) com ambas.

Fazendo uma recriação de época excepcional através de sua direção de arte e figurinos (o mínimo que um filme como este tem a obrigação de fazer, afinal de contas), o longa até desperta certo interesse ao apresentar ao espectador as dificuldades enfrentadas pelo povo de sua época, que sonhava com um mundo em que todos poderiam ter acesso a qualquer livro que bem entendessem e as mulheres eram proibidas até mesmo de manter uma conversa amigável com um transeunte qualquer sob o risco de serem consideradas vulgares e “fáceis”.

É uma pena, portanto, que a partir de seu segundo ato a história assuma um caráter tão batido e redundante, passando a investir desesperadamente no melodrama e a plantar conflitos artificiais no caminho dos personagens a fim de criar a ilusão de que sua trama está andando – e não, o fato de em determinado momento Charlotte verbalizar que “quando se ama, é importante que haja obstáculos a ser enfrentados”, em uma tentativa tímida de metalinguagem, não redime o frágil roteiro (escrito pelo próprio Graf) de sua previsibilidade.

Montado de forma extremamente problemática por Claudia Wolscht, Duas Irmãs, Uma Paixão é daqueles filmes em que você nunca sabe quanto tempo se passou entre uma cena e outra, sendo constantemente surpreendido ao ouvir os personagens citando as datas dos últimos eventos vistos na tela e perceber que apesar disso os personagens mantém-se com o mesmíssimo rosto desde o início da projeção.

E por falar nos personagens, se há um motivo que torna a projeção relativamente interessante é a vivacidade da bela Hannah Herzsprung, que, vivendo Charlotte como uma mulher determinada e dona de suas próprias ideias, nos conquista a torcermos pelos rumos da personagem. Por outro lado, Henriette Confurius e Florian Stetter jamais conseguem criar a mínima empatia, afastando o espectador e tornando a experiência toda ainda mais aborrecida.

Com um final arrastado que parece não fazer a menor ideia de onde quer chegar, Duas Irmãs, Uma Paixão é um épico que até parte de uma boa premissa e a estabelece de maneira razoavelmente intrigante, mas não demora muito para assumir-se como um projeto convencional que poderia muito bem ter saído da linha de produção de Hollywood.