“Cuidado com a PF…”: a inaceitável ameaça de Mário Frias a um deputado. Por Moisés Mendes

Em tempos de normalidade, as instituições saberiam o que fazer com a ameaça de Mário Frias, secretário de Cultura, ao deputado Flavio Serafini, do PSOL do Rio.

No debate sobre o vídeo medonho, em que Frias pretende exaltar figuras da História e acaba por exaltar a si mesmo, o secretário sentiu-se ofendido pelas intervenções de Serafini em defesa do humorista Marcelo Adnet e ameaçou no Twitter:

“Cuidado com a PF…”.

Assim, com reticências. Na ditadura, os pretensos amigos dos ditadores e seus subalternos gostavam de ameaçar: cuidado com a polícia dos homi. Com ponto de exclamação ou também com reticências.

Frias talvez esteja blefando, mas pode apenas ter decidido ser explícito, porque é da turma dos garotos de Bolsonaro. Frias teria as contas e o Twitter quentes.

Na normalidade, ninguém faria uma ameaça como essa impunemente. Mas na normalidade não aconteceria o que vem acontecendo no Brasil.

Na normalidade, um ministro da Justiça não abandonaria o governo denunciando o presidente da República por tentar manipular a Polícia Federal para proteger os filhos.

Na normalidade, a Polícia Federal não estaria sob investigação sob suspeita de ter vazado informações para Fabrício Queiroz sobre sindicâncias em torno das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

Na normalidade, a PF não estaria sob suspeita de ter vazado informações para o doleiro Dario Messer, pouco antes das operações para desbaratar a quadrilha que ele comandava.

Na normalidade, Bolsonaro não teria tirado servidores de cargos de chefia para acomodar agentes da sua confiança.

Na normalidade, uma ameaça como a de Mario Frias provocaria, de imediato, uma manifestação da Polícia Federal, porque Frias é autoridade, é uma figura pública, e a PF é uma instituição de Estado.

Na normalidade, a Polícia Federal não estaria sob tantas investigações, todas relacionadas com a suspeita de submissão a manipulações políticas e a vínculos estranhos com a família no poder.

Como estamos na anormalidade, sem ter ainda a noção exata do tamanho dos desmandos em todas as áreas, um secretário de Cultura pode ameaçar um deputado com a Polícia Federal, com a intenção de deixar claro que a PF pode funcionar como polícia política de Bolsonaro.

Mario Frias é artista. Wilson Simonal era artista e tentou fazer o mesmo na ditadura, ameaçando desafetos com os homi. Os homi perseguiam, prendiam, torturavam e matavam. Todos os homi estão impunes até hoje. Todos.

Simonal estava próximo da genialidade. Frias é um canastrão mediano próximo da mediocridade. Simonal estava blefando, Frias talvez não esteja. Simonal ficou conhecido como amigo dos bandidos e teve a carreira devorada pelas próprias ameaças.

(Quem disser que Simonal era apenas um ingênuo, que ‘brincou’ com as ameaças para se livrar de desafetos, pode então dizer o mesmo de Mario Frias.)

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