Cúmplice de Epstein que aliciou meninas no Brasil negociou delação — e apareceu enforcardo na cela

Atualizado em 19 de fevereiro de 2026 às 17:08
Brunel em festa de aniversário de Epstein

Jean-Luc Brunel, o olheiro de modelos francês que orbitava Jeffrey Epstein havia décadas, esteve a um passo de romper com o financista e entregar informações às autoridades dos Estados Unidos.

Documentos recentes do Departamento de Justiça mostram que, em fevereiro de 2016, procuradores federais registraram que Brunel queria cooperar, temia ser processado e possuía provas fotográficas comprometedoras. Segundo o Wall Street Journal, seu advogado, Joseph Titone, negociava uma reunião com o Ministério Público em Nova York em troca de imunidade.

A avaliação de advogados das vítimas era clara: Brunel ajudava a “conseguir garotas” para Epstein e poderia abrir a estrutura por dentro.

Anotações revelam que Brunel estava disposto a falar também sobre outros nomes envolvidos no esquema, incluindo Ghislaine Maxwell e recrutadores internacionais. Em 3 de maio de 2016, porém, Epstein soube das tratativas. Em e-mail enviado à advogada Kathy Ruemmler, relatou que Brunel pretendia comparecer ao escritório do procurador e mencionou que um amigo do francês teria pedido US$ 3 milhões para que ele não fosse.

Horas depois, a movimentação foi tratada entre advogados. O que os documentos não esclarecem é por que a delação nunca se concretizou. O fato é que Brunel recuou, os promotores não avançaram naquele momento e Epstein permaneceu em liberdade até 2019.

A desistência teve consequência direta. Segundo David Boies, advogado de vítimas, mais de 50 meninas teriam sido traficadas após 2016. Brunel era peça estrutural no esquema. À frente da MC2 Model Management, financiada com US$ 1 milhão transferidos por Epstein em 2005, ele recrutava jovens estrangeiras com promessa de carreira internacional, providenciava vistos e as colocava em apartamentos ligados ao financista.

E-mails de 2006 mostram Epstein instruindo Brunel a incluir uma mulher na folha de pagamento com salário anual de US$ 50 mil e pedindo que o pagamento começasse imediatamente. Registros indicam que Brunel visitou Epstein quase 70 vezes na prisão da Flórida após a condenação de 2008.

Os arquivos também revelam a atuação de Daniel Siad como recrutador comum aos dois. Em 2014, Siad informava a Epstein que tinha “2 garotas da Suécia, uma eslovaca, 2 francesas e a russa com quem você conversou”, pedindo reembolso de 2.700 euros. A lógica era tratada como operação comercial.

Brunel em Brasília em 2019

Virginia Giuffre afirmou em processos judiciais que Brunel oferecia empregos de modelo como fachada para tráfico sexual e que Epstein se gabava de ter se relacionado com mais de mil “garotas de Brunel”. Parte dessas alegações colocou o francês sob os holofotes a partir de 2014.

Em 2019, Brunel apareceu no Brasil com planos de abrir a “One Mother Agency”. De acordo com a Sky News, dados de rastreamento apontaram seu telefone no Infinity Blue Resort & Spa, em Santa Catarina, no mesmo período em que o celular de Maxwell registrou conexão no estado. A presença nunca foi oficialmente confirmada.

Após a prisão de Epstein em julho de 2019 e sua morte no mês seguinte, Brunel entrou na clandestinidade. Em dezembro de 2020, foi detido em Paris ao tentar embarcar para o Senegal, acusado de estupro e tráfico de menores.

Em fevereiro de 2022, Jean-Luc Brunel foi encontrado morto, enforcado na cela. A morte foi tratada como suicídio. Antes disso, sua trajetória já acumulava denúncias desde os anos 1980, quando modelos o acusaram em reportagem do programa “60 Minutes” de drogar e abusar de mulheres. Nunca houve condenação naquele período.

Os novos documentos mostram que ele esteve a poucos passos de colaborar com as autoridades americanas. Não colaborou. O esquema seguiu ativo por mais três anos. Depois, a engrenagem começou a ruir — com Epstein morto, Maxwell condenada a 20 anos de prisão e Brunel suicidado.

Anotações de um procurador federal dos EUA em 2016 sobre um possível depoimento de Brunel contra Epstein
Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.