Curiosos tempos bolsonaristas. Por Juremir Machado da Silva

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO FACEBOOK DO AUTOR

Há sempre algo de infantil nas falas de Sérgio Moro. Se alguém parece culpado, é culpado. A lógica conta mais que a prova. Se algo pode lhe favorecer, é legal. Era flagrante o descumprimento da lei por Moro ao, como juiz em férias, participar da constituição de um novo governo. A explicação dele era de escola maternal: só estava colaborando. Queria mamar as férias. Por outro lado, dizia que precisava proteger a família de um imprevisto, um atentado. O que a nação tinha a ver com isso? Se resolvera mudar de profissão, o risco era dele. Moro não aplica a si os seus critérios de ilação. Num julgamento, não sendo ele o objeto, certamente concluiria que quem divulga delação uma semana antes da eleição, prejudicando um lado, e depois aceita integrar o governo vencedor, agia de caso pensado. Não se deve esquecer que ele foi sondado antes do pleito.
Há sempre algo de contraditório nas falas de Jair Bolsonaro. Ele abomina ideologias. Mas, antes mesmo de assumir, arranjou briga com o mundo árabe, falando, por ideologia, em transferir a embaixada do Brasil para Jerusalém. Arranjou briga com a China ao, por ideologia, afagar Taiwan. Arranjou briga com Cuba ao, por ideologia, falar em romper relações diplomáticas com a Ilha. Arranjou briga com a Europa ao, por ideologia, escolher um ministro das Relações Exteriores messiânico que vê o continente europeu como um vazio cultural. Arranjou briga com a população pobre do Brasil ao, por ideologia, levar Cuba a retirar seus médicos das nossas cidades. O doente não quer saber se o médico é comunista ou capitalista, quer o atendimento. Além disso, o atendimento dos cubanos era aplaudido pelos principais interessados. Bolsonaro preferiu estimular a ideia de que o avental dos nossos médicos jamais será vermelho. Será branco imaculado.
Há algo de obscurantista no bolsonarismo intelectual. O guru da turma é um astrólogo que se diz filósofo ou um suposto filósofo apaixonado por astrologia. Claro que, segundo ele, a sua astrologia não é a dos horóscopos de jornal, mas a da cultura erudita de outros tempos. Quantos filósofos sérios de hoje encontram alguma astrologia para louvar? A filosofia bolsonarista prega contra ideologia de gênero. Os gays são os seus bárbaros. O Ocidente estaria ameaçado pela dissolução de costumes.
Há algo de preocupante no que vem por aí até para quem votou em Bolsonaro: ele namora a ideia de privatizar a aposentadoria de todo mundo (regime de capitalização, que tira empregador e Estado da jogada), flerta com a possibilidade de facilitar a demissão de funcionários públicos, defende a prática de policiar professores em sala de aula para que não desmontem as ideologias disseminadas pelas narrativas dominantes ao longo dos séculos e, para livrar o país das ideologias como a do Foro de São Paulo, pretende, por ideologia, criar um Foro de São Paulo de direita.
Há algo de anacrônico em Paulo Guedes, o ministro da economia de Bolsonaro. Ele quer implantar no Brasil o modelo econômico ultraliberal de Pinochet. Mas o seu presidente tem no DNA o intervencionismo de Geisel.
Há algo de esquisito num mundo que passa a ter quatro inimigos: os gays, os comunistas, os professores e os funcionários públicos. Uau!

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