Curitiba implementa internação involuntária de dependentes químicos e gera debate nacional

Atualizado em 4 de fevereiro de 2026 às 9:56
Equipes de acolhimento em ação em Curitiba. Foto: Reprodução

Curitiba implementou a internação involuntária de dependentes químicos em situações consideradas extremas e colocou a capital paranaense no centro de um debate nacional sobre os limites e os impactos desse modelo de acolhimento, conforme informações do Globo.

A política começou a ser aplicada em dezembro e ganhou visibilidade após a divulgação de um vídeo em que uma mulher, mesmo recusando atendimento, é levada de maca por equipes da prefeitura. No registro, ela afirma: “Só uso pedra de crack, tá ligado? Não bebo”.

Segundo o prefeito Eduardo Pimentel (PSD), a medida se baseia em um novo protocolo voltado a pessoas que “não têm condições de se cuidar” ou representam “risco grave à própria vida e à vida de terceiros”.

Como funciona o protocolo de Curitiba

De acordo com a prefeitura, desde dezembro foram realizadas 20 internações sem consentimento. A portaria municipal prevê o recolhimento involuntário em situações excepcionais e inclui critérios como “risco moral ou patrimonial” e “ameaça à ordem pública”.

A gestão afirma que, nos casos aplicados, os internados “colocavam a própria vida em risco” e que as alternativas de atendimento já haviam se mostrado insuficientes. Registros oficiais indicam que a mulher filmada, por exemplo, havia sido abordada 175 vezes por equipes municipais entre 2018 e 2026.

Base legal e regras nacionais

A política adotada por Curitiba se apoia em mudanças na Lei de Drogas e em resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM), que permitem a internação involuntária em caráter excepcional. Nessas situações, parentes, responsáveis ou agentes públicos podem solicitar a medida, cabendo a decisão final a um médico, após o esgotamento de opções menos gravosas.

A restrição de liberdade deve ocorrer pelo menor tempo possível e ser comunicada em até 72 horas a órgãos de controle, como os Ministérios Públicos. A Política Nacional de Saúde Mental também diferencia internações voluntárias, involuntárias e compulsórias — estas últimas apenas por decisão judicial.

Ação integrada em Curitiba oferece segurança e acolhimento social | Tribuna do Paraná
Prefeitura de Curitiba faz ação integrada no centro e Jardim Botânico. Foto: Sandra Lima

Reações e críticas

A adoção do protocolo gerou reação de órgãos e especialistas. A Defensoria Pública da União afirmou acompanhar “com preocupação” os desdobramentos da medida e avalia questioná-la judicialmente, além de ter pedido a retirada do vídeo divulgado pela prefeitura, no qual a mulher, segundo a entidade, “é exposta em situação de extrema vulnerabilidade”, alimentando uma “campanha de natureza manifestamente higienista”. A prefeitura rejeita irregularidades e classifica as críticas à comunicação como “avaliação subjetiva de terceiros”.

A advogada Luciana Barbosa Musse avalia que a portaria está alinhada às normas federais ao tratar a internação como excepcional, mas questiona a adoção de conceitos amplos.

“Quando se fala em risco a terceiros, há subjetividade. O tratamento é para melhorar a saúde global do indivíduo, não de outras pessoas. O que é risco moral, para quem? E risco ao patrimônio não é questão médica. São termos vagos, que podem ser usados sem objetivo final de saúde”, afirma.

Debate nacional

Levantamento do Globo aponta que cerca de 30% das capitais brasileiras já implementaram ou discutem medidas semelhantes, adaptando políticas locais às diretrizes nacionais. Em Santa Catarina, cidades como Blumenau, Chapecó, Criciúma, Balneário Camboriú e Florianópolis já adotaram estratégias do tipo.

Em Niterói (RJ), uma política de “acolhimento involuntário em casos excepcionais”, aprovada no ano passado, também enfrentou reação do MPF, da DPU e da Defensoria Pública estadual, que viram margem para “práticas manicomiais” vedadas desde 2001.

Em São Paulo, a internação involuntária foi uma das apostas para enfrentar a situação da Cracolândia. A prefeitura afirma que a medida é voltada “à preservação da vida” e aplicada apenas “quando há necessidade de cuidados intensivos”, mas o modelo segue sob questionamento de entidades de direitos humanos.