Da igreja evangélica ao Vaticano: a história do bispo brasileiro que casou e teve 7 filhos

Atualizado em 24 de março de 2026 às 7:30
O bispo Salomão Ferraz. Foto: reprodução

O brasileiro Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969) entrou para a história como um caso único na Igreja Católica: mesmo sendo casado e pai de sete filhos, foi aceito como bispo e participou do Concílio Vaticano 2º, realizado entre 1962 e 1965. Sua trajetória religiosa marcada por diferentes denominações e forte defesa do ecumenismo explica a excepcionalidade de sua presença na hierarquia católica.

Nascido em Jaú (SP), Ferraz iniciou sua vida religiosa como pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, seguindo os passos do pai. Em 1903, casou-se com uma imigrante italiana, com quem teve sete filhos. Ao longo de sua atuação, passou a questionar práticas da denominação, como a exigência de rebatismo de convertidos vindos do catolicismo, o que gerou conflitos internos.

Em 1917, migrou para a Igreja Episcopal Anglicana no Brasil, onde aprofundou sua formação teológica e passou a adotar práticas litúrgicas mais próximas do catolicismo. “Desde o início ele buscou na prática o diálogo com outros cristãos, ou seja, aquilo que unia as igrejas em vez do que as separava”, afirmou o teólogo Rafael Vilaça Epifani Costa em entrevista à BBC. A defesa do diálogo inter-religioso e da unidade cristã se tornaria uma marca central de sua trajetória.

As divergências com lideranças anglicanas levaram Ferraz a deixar a denominação e fundar, em 1928, a Ordem de Santo André, além da Igreja Católica Livre, da qual se tornou bispo. Sua ordenação episcopal foi realizada por Carlos Duarte Costa, religioso que havia rompido com o Vaticano. Ainda assim, Ferraz mantinha proximidade com a doutrina católica romana, especialmente ao reconhecer a autoridade do papa.

Salomão Ferraz em imagem do acervo de Rafael Vilaça Epifani Costa. Foto: reprodução

Essa aproximação culminou em sua incorporação formal à Igreja Católica, aceita pelo papa João 23. O processo foi conduzido com apoio do então arcebispo de São Paulo, Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. Apesar de resistências, Ferraz foi acolhido como bispo, mesmo sendo casado, o que contrariava a disciplina tradicional do celibato clerical.

“O fato de Salomão ser casado seria um empecilho canônico. Porém, devido à idade avançada, considerou-se que o casal naturalmente guardava o celibato, sendo um caso sui generis na história de toda a Igreja”, explicou Costa. Segundo registros históricos, Ferraz vivia separado da esposa desde 1945, o que também teria facilitado sua aceitação.

Como bispo auxiliar em São Paulo, participou do Concílio Vaticano 2º, onde realizou 11 intervenções. Defendeu a celebração da missa na língua local, em vez do latim, e também a ordenação de homens casados, tema que segue em debate até hoje. Em 1964, chegou a apresentar ao papa Paulo 6º um memorando propondo mudanças na disciplina do celibato.

Ferraz morreu em 9 de maio de 1969, deixando como legado a defesa da unidade entre os cristãos. Para o teólogo Leonildo Silveira Campos, sua principal contribuição foi justamente essa visão integradora. “A defesa que ele fez da possibilidade de uma união entre os cristãos, de forma ampla”, disse.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.