Dados do Pisa não podem ser usados para destruir ensino público, alerta especialista. Por Caroline Oliveira

Sala de aula. Foto: Shutterstock

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR CAROLINE OLIVEIRA

A estagnação da educação brasileira, expressa nos dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), foi um dos assuntos que mais repercutiu nas redes sociais na manhã desta terça-feira (3). Muitos dos comentários continham críticas à educação pública e elogios ao ensino privado.

Para Daniel Cara, doutor em Educação e coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, essa interpretação ignora questões de fundo. “Algumas pessoas estão fazendo uso do Pisa – que reflete problemas estruturais do Brasil, sim – para desconstruir a educação pública, sendo que esta nunca teve o investimento merecido”, alerta.

Análise dos resultados

Entre 2003 e 2018, o Brasil apresentou uma leve melhora. No entanto, parte desse desenvolvimento se deu nos primeiros ciclos do Pisa. Depois de 2009, a performance dos estudantes em matemática, leitura e ciência ficou estagnada.

Para o especialista, o resultado é esperado. “Não houve nenhuma mudança nas políticas educacionais nos últimos dez anos. O segundo mandato do presidente Lula [2006-2010], especialmente na parceria com as cidades e com os estados, ajudou a melhorar os índices, mas parou por ali. Então, o Congresso Nacional aprovou uma série de leis em articulação com a sociedade civil, mas os governos não implementaram essas leis”, analisa.

O quadro mais crítico é o de matemática. Somente 32% dos estudantes brasileiros que realizaram o exame atingiram o nível mínimo da disciplina no país, ou seja, demonstraram que conseguem, por exemplo, converter preços em variadas moedas.

Em ciências, 45% dos brasileiros atingiram o nível mínimo. Isso significa que eles conseguem identificar, com base em dados disponíveis, quando uma conclusão é verdadeira ou não. A média entre os 79 países é de 78%.

O quesito leitura é o que se destaca positivamente: 50% chegaram ao mínimo, diante de 77% da média total. Nesse caso, significa que tais estudantes conseguem identificar, em um texto de tamanho médio, a informação principal ali contida.

Cara lembra que o Pisa tem limitações.

“O que o Pisa não consegue explicar é esse aspecto interessante: se a gente for pensar o raciocínio inverso, considerando o que se investe em educação do Brasil e nos países mais desenvolvidos. Certamente, se os países mias desenvolvidos tivessem os mesmos investimentos que tem o Brasil, os resultados deles seriam tão ruim ou piores do que o Brasil”, afirma. “O Pisa é ruim, é um exame muito insensível. Só que é inegável que consegue também demonstrar problemas”.

O especialista afirma que a avaliação seria mais justa se considerasse o quanto se investe para cada estudante, quais as condições das escolas e quanto ganham os professores.

Uma das alternativas para superar a estagnação, segundo ele, é o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

“Hoje, o Fundeb investe 156 bilhões de reais na educação pública, para 40 milhões de matrículas. A gente está lutando para que se aproxime de 200 bilhões e alcance mais de 50 milhões de matrículas”, pontua. “O governo Bolsonaro, com Paulo Guedes, Abraham Weintraub e organizações de base empresarial, são contra o Fundeb”.

O governo, alerta Cara, tem ligações com grupos empresariais que têm interesse em difundir a ideia de que a educação privada é melhor que a pública.

“A educação tem que ser um mecanismo, a base para a justiça social e a democracia. No Brasil, ela é hoje uma vertente de privilégios. Então, a gente tem que fazer com que a educação retome seu programa original, seu programa político, que é fazer com que, por meio do conhecimento, as pessoas consigam se emancipar”, finaliza.

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