Datafolha: a crise institucional instaurada pelo golpe dificilmente se resolverá em outubro. Por Ricardo Cappelli

Crise dificilmente se resolverá com as eleições.

POR RICARDO CAPPELLI

Sem nenhum movimento de reaglutinação de forças importante e com a Copa tomando conta da agenda pública, a tendência é que nenhuma alteração significativa aconteça até o fim de julho. As apostas vão continuar:
1 – Lula continua sendo a principal liderança e o maior cabo eleitoral. Imbatível. Mas tudo indica que não será candidato.
2 – O plano B do PT testado, Haddad, não ganha de ninguém no segundo turno hoje. É natural. O ex-prefeito não está em campanha. A leitura dos que votam, não votam, ou podem votar em alguém indicado por Lula dá margem a todo tipo de interpretação. Prendê-lo foi estratégico para reação. A aposta do PT é que o plano B, quando exposto, assumirá os índices de Lula.
3 – A unidade do campo popular e democrático colocaria um candidato no segundo turno. Não acontecerá. PT e PDT têm estratégias e candidatos bem definidos.  Dois apostadores que bancarão seus jogos até o final.
4 – Marina, sem Lula, aparece imbatível no segundo turno. É a candidata “do meio”. Colhe votos entre vermelhos e azuis. FHC não flerta com ela por acaso. Seu partido é muito frágil. Uma boa carta sem uma mão que sustente a aposta.
5 – Bolsonaro lidera no primeiro turno sem Lula. No segundo, empata com Alckmin e Ciro, ganha do plano B do PT e perde de Marina. A liderança fortalece sua estratégia de não se expor e evitar debates. Este artifício já foi usado fartamente por candidatos em outros pleitos. Teremos uma campanha curta. Com muitos candidatos sua estratégia pode funcionar.
6 – Ciro se mantém bem colocado. Um percentual expressivo considera que Lula deveria escolhê-lo como alternativa. Seu destino está atrelado à sua capacidade de ampliar. Isolado não vai longe.
7 – Alckmin se segura na força do PSDB, partido estruturado nacionalmente. É o inverso de Marina. Se conseguir aglutinar a centro direita entra no jogo. Do contrário pode ser cristianizado ou até substituído.
8 – A disputa se mantém em torno destes cincos candidatos. PT, Ciro, Marina, Alckmin e Bolsonaro estão no páreo. Dois irão ao segundo turno.
Muito provavelmente o próximo presidente será eleito com a minoria dos votos. A soma dos votos não válidos com os votos do perdedor deve chegar perto de dois terços dos votos, com os não válidos beirando os 50%.
Um presidente eleito nestas condições terá enorme dificuldade de recolocar o país nos trilhos. A instabilidade deve continuar presente.
A era de sombras e de erosão da democracia iniciada com o golpe tende a ser longa e tortuosa. A crise institucional dificilmente se resolverá no dia 7 de outubro.
Apesar disto, o resultado das urnas será fundamental. Apontará se nosso destino é a luz ainda distante ou o aprofundamento do obscurantismo que nos ronda.
Em tempos de esterilização higienista patrocinada por setores do judiciário, uma esterilização democrática não pode ser descartada.
Neste quadro, vestir a fantasia de apostador do futuro do Brasil e de seu povo, brincando com a razão, é uma grave irresponsabilidade histórica.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!