DCM TV: Volks assume culpa por colaboração com ditadura apoiada por Bolsonaro, mas acordo divide lideranças

A Associação de Vítimas da Henrique Plagge anunciou esta semana acordo com a Volkswagen em torno da indenização aos metalúrgicos e famílias de metalúrgicos que sofreram com a cumplicidade da empresa com a ditadura. Por conta dessa colaboração criminosa, operários, como o ferramenteiro Lúcio Bellentani, foram entregues à repressão, presos e torturados.

A Volkswagen reconheceu a colaboração e se comprometeu a indenizar as famílias, publicar comunicados em jornais de grande circulação e destinar recursos para a preservação da memória dos trabalhadores.

Parte desse dinheiro vai para o Ministério da Justiça do governo de Jair Bolsonaro. Outra será entregue à OAB, para a construção de um centro de memória na antiga auditoria militar.

Para ativistas que levantaram documentos que comprovaram a colaboração, o acordo é insatisfatório. Mais do que isso. “Vergonhoso”, disse o presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, Adriano Diogo.

Um dos que mais lutaram pela reparação histórica foi Lúcio Bellentani, morto no ano passado. No evento em que o acordo foi anunciado, quinta-feira passada, a família de Bellentani não estava presente.

“Não fomos convidados”, disse Rosana, na live exibida pelo DCM TV na tarde deste sábado, 26/09/2020.

Sebastião Neto, do Fórum trabalhadores por Verdade Justiça e Reparação, também falou da importância que seria o memorial do trabalhador na galeria Prestes Maia, no Vale do Anhangabaú, centro de São Paulo.

Ele próprio, juntamente com Adriano Diogo e o vereador Antônio Donato, ex-presidente da Câmara, negociaram com a prefeitura a cessão de um espaço para o Memorial.

A iniciativa não foi acatada no acordo.

Abaixo, segue a nota da associação de vítimas. O presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo classificou o texto como uma nota de interesse dos patrões.

“Falam como se fossem porta-vozes dos empresários”, disse.

NOTA PÚBLICA DA ASSOCIAÇÃO “HEINRICH PLAGGE”

Há décadas os trabalhadores da Volkswagen do Brasil, hoje ex-empregados, vitimados por perseguições políticas durante o período da ditadura civil-militar vivida no Brasil entre 1964 e 1985, com colaboração desta com os órgãos de repressão, lutam pela revelação da verdade do que com eles aconteceu nesse período opaco da vida brasileira e por reparação das vítimas e da coletividade.

Essa luta tem sido na busca de promoção da responsabilização dos autores das graves violações aos direitos humanos desses trabalhadores, preservação e divulgação da memória dessas violações aos direitos humanos praticadas no dito regime ditatorial.

Com esse objetivo e para propiciar maior investigação sobre esses fatos, as vítimas, com o apoio de inúmeras entidades civis, incluindo as centrais sindicais, fizeram chegar às mãos dos Ministérios Públicos Federal, do Estado de São Paulo (MPSP) e do Trabalho em São Bernardo do Campo, denúncia fundamentada das violações dos Direitos Humanos desses trabalhadores, com repercussão na sociedade.

A partir dessa denúncia oferecida em 2015 os órgãos dos Ministérios Públicos empreenderam intensa investigação, incluindo muitos depoimentos de testemunhas, das vítimas, pareceres de peritos e vasta documentação, inclusive parte dela extraída dos anais da comissão da verdade, demonstrando-se a real colaboração da empresa com os órgão de repressão do Estado durante a ditadura civil-militar, propiciando, assim, as muitas perseguições e agressões aos direitos humanos dos trabalhadores com prisões, condenações, torturas, demissões injustas, afastamentos das atividades remuneradas, cárcere privado no interior da empresa, colocação dos nomes, endereços de residências e fornecimento de documentos funcionais aos órgãos de repressão do Estado, nomes vinculados em listas negras para o sistema empresarial/repressivo, impedindo-os de acessar outro emprego, entre outras agressões aos direitos humanos.

Com a coleta desses importantes dados, para evitar a judicialização do conflito, foi desencadeada negociação entre as partes, com a participação da ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS DA VOLKSWAGEN DO BRASIL VITIMADOS POR PERSEGUIÇÕES POLÍTICAS E IDEOLÓGICAS NO PERÍODO DA DITADURA CIVIL-MILITAR, criada em 2018 para representar as vítimas, orientá-las e assessorá-las na busca dos seus direitos.

Foram quase três anos de intensa negociação, considerando a complexidade do caso e a resistência da empresa em atender às reivindicações dos trabalhadores e dos órgãos ministeriais.

Mas, finalmente, em 23 de setembro de 2020 chega-se à assinatura de um acordo com a VOLKSWAGEN DO BRASIL, através de um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta, firmado no âmbito de três Inquéritos Civis que investigam as denúncias de colaboração da empresa com o aparato da repressão do regime militar.

Diante da complexidade da negociação, entende esta Associação, que é a legítima representante dos trabalhadores, que fala por eles, que os MPs chegaram a um acordo possível. Esse acordo foi acompanhado por esta Associação, pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pelos atores sociais envolvidos, contemplando reparações coletivas, difusas e de direitos individuais homogêneos num momento difícil que vive o Brasil em termos de respeito aos direitos humanos.

Esse acordo inclui várias obrigações de natureza coletiva, em prol da sociedade e outras individuais, em favor das vítimas, a fim de que elas sejam compensadas financeiramente pelos prejuízos que sofreram nos seus direitos humanos.

O acordo assinado data de ontem é algo inédito na história brasileira para os trabalhadores e para a sociedade e tem enorme importância na promoção da justiça de transição, não só no Brasil, mas com reflexos mundiais, na busca de garantir a revelação da verdade, a preservação e divulgação da memória, a promoção de garantias de não-recorrência dessas práticas, bem como reparações aos direitos difusos e coletivos de ordem material e moral e aos direitos individuais dos trabalhadores vitimados por tais perseguições, embora tardiamente.

As reparações pecuniárias incluirão 9 milhões de reais para Fundos federal e estadual de direitos difusos (FDD), R$ 10,5 milhões para projetos de promoção da memória e verdade em relação a violações aos direitos humanos durante a ditadura militar de 1964 a 1985 e para a realização de estudos, pareceres e pesquisas sobre empresas e órgãos de repressão da época, R$ 6 milhões para um Memorial da Luta por Justiça, na sede da antiga Auditoria militar em São Paulo, de iniciativa da OAB/SP e do Núcleo de Preservação da Memória Política (NPMP), com a possibilidade de participação de entidades interessadas em preservar e divulgar a memória desses movimentos, R$ 4,5 milhões para a Universidade Federal de São Paulo (R$ 2,5 milhões para o Centro de Antropologia e Arqueologia Forenses (CAAF), para identificação das ossadas de Perus, pela ocultação dos restos mortais de perseguidos políticos e R$ 2 milhões para novas pesquisas sobre a cumplicidade de empresas com violações aos direitos humanos durante o governo ditatorial e R$ 16,8 milhões de reais para a Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Volkswagen que tenham sofrido violações aos direitos humanos durante a ditadura civil-militar com colaboração da VW.

O acordo contemplou importante reivindicação das vítimas e dos atores sociais envolvidos na discussão, um Memorial da Luta por Justiça, com um espaço especial para a luta dos trabalhadores dentro do que era possível e viável fazer neste momento, atendendo aspectos técnicos e legais, embora alguns atores sociais quisessem outras alternativas.

Sobre a destinação de parte dos valores aos Fundos federal e estadual de direitos difusos (FDD) existe previsão legal (art. 13 da lei 7.347/85), cujos recursos serão destinados à reconstituição dos bens lesados. Esses fundos são geridos por Conselhos de que participarão necessariamente o Ministério Público e representantes da comunidade.

Depois de homologado o referido acordo (TAC) pelos órgãos superiores dos Ministérios Públicos, a empresa assinará um Termo de Doação dos valores a serem destinados às compensações dos trabalhadores vitimados, cujos interessados deverão se habilitar perante a Associação em prazos a serem estabelecidos e comunicados de forma pública e oficial.

Também, depois de homologado referido acordo (TAC) pelos órgãos superiores dos Ministérios Públicos, a empresa publicará em jornais de grande circulação de São Paulo uma declaração pública sobre o assunto. Tanto essa publicação, como as demais prestações fixadas no TAC ocorrerão logo após os órgãos de controle interno do MPF e do MPSP homologarem o arquivamento dos Inquéritos civis, o que se estima possa ocorrer até o final de 2020 e os desembolsos financeiros definidos no TAC devem ser concretizados em janeiro de 2021.

Por fim, pelos resultados ora alcançados, cabe registrar nossos agradecimentos aos membros dos Ministérios Públicos que vêm atuando no caso, pelo empenho e fiel cumprimento das funções institucionais na busca de uma solução que atenda os interesses das vítimas e da sociedade, ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na pessoa do seu Presidente Wagner Santana, aos trabalhadores vítimas pelas perseguições políticas na ditadura civil-militar e herdeiros dos que já se foram, pelo empenho e crença no papel desta Associação e a todos os atores sociais que contribuíram com essa luta.

Associação “Heinhich Plagge”

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