
A trajetória de “O Agente Secreto” até o Oscar 2026 é uma espécie de vingança simbólica de Kleber Mendonça Filho contra o bolsonarismo. Depois de anos enfrentando boicotes, ataques ideológicos e o esvaziamento deliberado de políticas públicas para o audiovisual durante o governo de Jair Bolsonaro, o diretor pernambucano retorna ao centro do cinema mundial com um filme que encara de frente a ditadura militar.
“O Agente Secreto” foi indicado às principais categorias do Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (para Wagner Moura), e Melhor Elenco. Antes mesmo da Academia, o longa já havia acumulado reconhecimento relevante no circuito internacional, com prêmio no Critics Choice Awards e forte presença no Globo de Ouro, em que venceu como Melhor Filme em Língua Não Inglesa e garantiu o troféu de Melhor Ator para Moura.
O sucesso atual contrasta com o tratamento dado a “Bacurau”, lançado em 2019. O longa, dirigido por Kleber e Juliano Dornelles, foi celebrado internacionalmente, venceu o Prêmio do Júri em Cannes e se tornou um dos filmes brasileiros mais debatidos da década.
Ainda assim, acabou preterido nos processos oficiais de indicação ao Oscar, num contexto em que o governo Bolsonaro atuava abertamente para enfraquecer o cinema nacional, atacando a Ancine, paralisando editais e desmontando a Cinemateca Brasileira.
Naquele período, o próprio Kleber relatou episódios de sabotagem institucional e perseguição política. O incômodo causado por “Bacurau”, frequentemente lido como uma alegoria do autoritarismo e da violência de Estado, tornou-se emblemático da relação hostil entre o governo Bolsonaro e a produção cultural brasileira. O cinema, tratado como inimigo ideológico, foi empurrado para a margem.
Com “O Agente Secreto”, o diretor retorna em outro patamar. “Nunca conseguiria fazer um filme que não refletisse o que está acontecendo na sociedade”, disse. Ao comparar seus trabalhos na Jacobin em 2021, explicou que houve uma escalada consciente de tensão: “’O Som ao Redor’ tinha um tom, ‘Aquarius’ sobe um pouco, e ‘Bacurau’ sobe lá para cima”. Para o diretor, essa mudança estava ligada à ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo, especialmente após a eleição de Donald Trump, quando “a realidade alcançou o roteiro” e exigiu um cinema mais contundente.
A consagração de Kleber Mendonça Filho reforça a ideia de que a produção artística brasileira sobreviveu ao desmonte e retorna agora com força, prestígio e reconhecimento global. “O que se plantou em termos humanos não se destrói”, afirma.
Kleber Mendonça Filho (@kmendoncafilho) denuncia Bolsonaro em Cannes e posiciona o cinema brasileiro no combate a este governo autoritário, corrupto e genocida ✊🎥 #CinemaPelaDemocracia #ForaBolsonaro pic.twitter.com/thalS24k4A
— PT Brasil (@ptbrasil) July 9, 2021