DE BICICLETA EM PARIS

 

 

O debate sobre o uso da bicicleta tomou um rumo surreal no Brasil. Se você gosta, é de esquerda. Se não, é de direita. Os militantes mais fánaticos de ambos os lados são, como era de se esperar, preconceituosos e intolerantes. No limite, você não pode apenas passear de bike: você tem de tomar uma posição. Uma “matéria” recente no Diário Oficial do Estado de São Paulo não recomendava o uso de bicicletas porque os acidentes causariam prejuízos de milhões aos cofres públicos. É como sugerir que a melhor maneira de não ser assaltado é ficar em casa. Para o governo, que deveria cuidar da sua segurança, é sem dúvida a alternativa mais cômoda e mais malandra.

Pausa para consultar o Google Maps no iPhone

A discussão é enfadonha. Ok. Existe uma questão de urbanismo, de sustentabilidade (ui), de uma opção de vida, até. Mas, ao fim e ao cabo, uma bicicleta é apenas uma bicicleta. É um meio de transporte mais limpo, que ocupa menos espaço, que obriga você a se mexer – mas é apenas um veículo de transporte, não um símbolo. E é, fundamentalmente, boa.

Mas em Paris é melhor. Ali estão as vélibs. Se você não as conhece, é o seguinte: 20 mil magrelas de aluguel em 1 800 estações separadas por uma distância de 300 metros, disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana. Você pode pagar por um dia, uma semana ou por períodos mais longos. Embarca no Arco do Triunfo, digamos, e devolve no Marais. Chavinhas engenhosas presas a cabos de aço protegem dos gatunos. Qualquer queda eventual é menos humilhante do que ser expulso de um táxi porque se esqueceu de dar bom dia para o motorista (ou falou baixo demais e ele não ouviu).

Marília em uma das 1800 estações de aluguel

Minha mulher e eu riscamos a cidade inteira, sob sol e chuva, de dia, à noite, à tarde. Elas têm três marchas. Elas rodam macio. Como a cidade é plana, com a óbvia exceção de Montmartre, não exigem esforço demasiado. Não é um Tour de France. Existem ciclofaixas demarcadas. Dificilmente, mas muito dificilmente, você verá hostilidade da parte de motoristas de ônibus, motos ou carros. Para não dizer que é completa e totalmente seguro, no ano passado morreram nove ciclistas. Em Londres, com as “Boris bikes”, que seguem o mesmo modelo, houve dez acidentes fatais. Cenas como as que vemos em São Paulo, com coletivos tentando atropelar ciclistas numa fúria vingativa, são impensáveis.

As vélibs (contração de velo com liberté) são parte da paisagem. Ponto. Você é apenas um viajante feliz aproveitando ao máximo um serviço incrível que a prefeitura coloca à disposição dos cidadãos. Fomos ao Pompidou ver uma exposição incrível de Matisse, fomos almoçar no Comptoir du Relais, fomos a um cinema na rua Balzac, estacionamos perto do hotel. Certos roteiros são imbatíveis: pelo canal St. Martin, especialmente na tarde de domingo, quando há shows na praça e músicos se reúnem para jam sessions. Pelas margens do Sena, com uma parada na livraria Shakespeare and Co. ou na Notre Dame. Entre as lojinhas e restaurantes descolados do Marais, o bairro judeu. Nos arredores do Beaubourg. Em Montparnasse e nas imediações dos Jardins de Luxemburgo (lembrando que, para entrar nos jardins propriamente ditos você precisará desmontar porque, senão, um guardinha simpático ordenará que você o faça). Nas ciclovias do Bois de Boulogne e do Bois de Vincennes.

Domingo é dia de passear no Canal St. Martin
Andar no meio dos carros: não precisa

Siga as normas básicas de segurança e seja feliz: preste atenção nos demais ciclistas; prefira trafegar dentro dos limites das ciclovias; não ultrapasse carros pela direita; use o braço para indicar que fará uma curva. Quer dizer, não finja que é o Evil Knievel. A não ser você pretenda fazer um protesto suicida. Mas quem precisa protestar se é tão bacana dar umas pedaladas de bicicleta?

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