De bicicleta para o Itaquerão

O Diário do Centro do Mundo esteve no centro do mundo no dia 12. O centro do mundo nesse dia foi Itaquera, na zona leste paulistana.

Para chegar lá, nosso repórter Jura Passos foi de metrô da estação Palmeiras Barra Funda à Corinthians Itaquera. Um percurso, convenhamos, extremamente antagônico.

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“Seria bom se todo dia fosse assim”, concluiu ele. A cidade estava tranquila, mesmo sem aquele êxodo de fim de semana que atravanca as rodovias.O metrô mais confortável do que costuma. Uma hora antes do início jogo entre Brasil e Croácia, estava mais vazio do que o Ibirapuera em dia de chuva. A viagem entre os dois extremos da linha leste-oeste levou 32 minutos. As estações

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A primeira impressão foi a de que a maior torcida do Brasil na Copa é boliviana. As famílias andinas inteiras, com a bandeira do Brasil na mão, demonstravam que vieram para ficar. Como nos tempos em que os paulistanos iam ao aeroporto de Congonhas para ver o movimento dos aviões, muita gente foi a Itaquera apenas para descobrir que não havia movimento algum.

Se São Paulo e o Brasil são divididos entre centro e periferia, a Copa em Itaquera foi o retrato disso. O mundo do lado de fora da Arena Corinthians era o contrário do lado de dentro. Entre os dois, um anel de segurança máxima de algumas centenas de metros – uma zona militarizada – impedia qualquer contato entre ambos.

No centro daquele mundo, uma elite rica e mal educada ofendia grosseiramente a presidente da República do país que organizou o espetáculo que todos secretamente desejavam ver, mas tinham vergonha de dizer.

Se dentro da festa os convidados gritavam impropérios contra a anfitriã, quem ficou do lado de fora só queria comemorar. Se fosse um baile, os barrados iriam dançar na rua e a orquestra ia tocar sozinha.

Do lado de fora os artistas eram ilustres desconhecidos que – ao contrário dos centrais – não se tornaram famosos pela mediocridade de suas performances.

Não se ouviam protestos, nem divisões. Havia torcedores uniformizados de vários países – inclusive da Argentina de Maradona – abraçados entre si.

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Alguns soldados do exército imberbes e modorrentos, em meio a milhares de policiais militares, assustavam mais pela aparente incapacidade de usar as armas que portavam do que o contrário.

E, sobretudo, entre os de dentro e os de fora, havia muita polícia. Na realidade, Itaquera, a pedra que dorme, acordou em estado de sítio. Era proibido sair do metrô, a menos que você tivesse um ingresso como salvoconduto.

Como a FEB na campanha da Itália, a bicicleta do DCM conseguiu invadir a linha gótica da Fifa, seguindo pela ciclovia deserta da Radial Leste. Passou sob o conjunto de viadutos em curva e a passarela coberta que dão acesso ao Itaquerão.

Cruzou um destacamento avançado de sonolentos soldados do batalhão de choque protegidos por um sentinela armado de escopeta de balas de borracha. Disfarçado de croata, obteve informações sobre as posições inimigas.

Passou pelo conjunto habitacional popular vizinho, coberto de bandeiras do Brasil nas janelas. E, aproveitando-se de um descuido, driblou a zaga para invadir a terra proibida por uma abertura na barreira formada pelo time de camisa negra.

O Itaquerão fica em cima de um morro, como a fortaleza alemã em Monte Castelo. Para chegar até lá, a partir da Radial Leste, segue-se por passarelas construídas na encosta, rasgada por taludes e coberta por viadutos que dão acesso ao estádio mas barram a passagem da luz do sol. Uma paisagem árida, feia e lunar, onde nosso repórter alcançou um torcedor croata perdido e atrasado quinze minutos para o jogo.

Ao tentar completar a volta olímpica externa do estádio, o repórter do DCM foi finalmente cercado por tropas militares do governo estadual e conduzido de volta à estação sitiada do metrô, de onde foi deportado novamente para a Barra Funda.

O experimento deu certo. Ficou provado que o anel militarizado pode resolver os problemas de segurança pública de uma sociedade dividida entre o centro e a periferia durante algumas horas, desde que as invasões de ciclistas sejam contidas. Os croatas munidos de ingressos milionários terão passe livre.

Um problema é que o raio de São Paulo – ou do Brasil – é muito maior do que o do Itaquerão. Vai faltar soldado. Outro, muito maior, é que o nome disso é apartheid. Essa é a experiência que está em jogo e da qual o Brasil tenta se livrar de uma vez por todas.

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