
Completo, em 2026, 12 anos como jornalista do Diário do Centro do Mundo (DCM). Conheço José Cássio, editor do site, desde 2015, inicialmente como repórter cobrindo o PSDB e também dividindo companhia em lives no YouTube. Seu novo livro, “De Pé”, da Kotter Editorial, é um mergulho na vida de sua família desde o bairro do Caxingui, Zona Oeste de São Paulo, até sua mudança para a cidade de Jaú, no interior do estado.
Jose Cássio dedica o livro à psicóloga Ana Cássia Maturano, ex-colunista do G1 e que publicou alguns textos no DCM. Ela faleceu em 15 de novembro de 2018, vítima de um câncer de mama agressivo, o que provocou uma reviravolta na vida de um pai com dois filhos entrando na adolescência.
Ao longo de 176 páginas e 69 capítulos, José Cássio descreve em detalhes seu sentimento de amor por Cássia, as circunstâncias trágicas da morte de sua mulher, seu trabalho na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal de São Paulo, além de sua entrada no emprego como repórter investigativo do DCM. Com a morte da companheira, narra sua viuvez durante o governo Jair Bolsonaro e as responsabilidades como pai solo, sem suporte ou companhia.
Apesar do relato pesado e detalhado, o texto é direto e não adota um formato cronológico. José Cássio não evita voltar e avançar na história para tentar retratar todas as etapas de seu luto particular, sem poupar detalhes até mais íntimos.
O autor registra tudo para mostrar o afeto pela mãe de seus dois filhos e para documentar que, na ausência dela, teve que se adaptar para ser forte diante de uma pandemia no interior de São Paulo, após uma mudança dramática e às pressas.
Também relata sua experiência como professor e seus diálogos com moradores de um município que votou em sua maioria em Bolsonaro até na reeleição. Conta, logo no começo do livro, sobre a relação complicada com seu pai, que rejeitava sua vontade de se tornar jornalista e que rasgou seu pôster do líder revolucionário Che Guevara.
Saindo da crônica pessoal, o autor também traça paralelos entre sua história e a cobertura que fez sobre a morte, também por câncer, de Bruno Covas, então um dos nomes em ascensão do PSDB. Também aborda a ascensão de Ricardo Nunes à prefeitura de São Paulo como uma criação de Michel Temer. Esses fatos apurados pelo jornalista tornaram-se reportagens exclusivas no DCM.
Nessa dura jornada, José Cássio presta todas as homenagens a Cássia, aos filhos e detalha sua retomada de vida.
Fala sobre como foi descobrir um novo amor, como foi entrevistar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes de seu terceiro mandato, além da mudança em sua vida pessoal após uma reportagem especial sobre o padre Júlio Lancellotti e seu trabalho com os miseráveis em São Paulo.
Zé Cássio definiu o conceito de seu livro nesse encontro com o religioso, bem descrito neste trecho:
“Ele me recebeu no meio disso tudo. Um aperto de mão firme, um olhar que atravessava palavras. Conversamos poucos minutos.
Num intervalo, olhou-me nos olhos e disse:
— Aqui a gente não tem o direito de cansar. Eles — e fez um gesto com a cabeça em direção à fila — precisam que a gente esteja de pé.
Não era um clichê. Era a tradução de sua rotina. Um mandamento.”
E completou:
“Escrever esta história foi, acima de tudo, um ato de reconhecimento. Reconhecer as quedas e, principalmente, os pilares invisíveis que me sustentaram. A pessoa que atravessou esses quatro anos não foi moldada apenas pela tragédia. Ela já existia antes: no silêncio, na teimosia, na vontade de caminhar sozinho.
Sou, por natureza, um solitário funcional. Minha paz sempre veio do anonimato, do andar só. Essa característica me blindou contra críticas e me manteve de pé quando tudo desabava, mas também ergueu barreiras quase intransponíveis. Em Jaú, essa anatomia ficou à mostra: a casa bagunçada, as refeições sobre a mesa da pia, o silêncio pesado. Não eram apenas sintomas de luto, mas o retorno a esse estado primitivo de isolamento. (…)
Do meu pai, herdei o gesto prático. De Cássia, a profundidade. Aos meus filhos, dei sem querer essa capacidade de engolir seco e seguir. ‘Ninguém solta a mão de ninguém’ ganhou para nós um sentido íntimo: segurar a mão do outro, mesmo quando a natureza manda soltar, é um ato consciente de amor.”
No dia 6 de abril, às 19h, José Cássio lançará “De Pé” na Livraria da Vila na Avenida Paulista, 1063.
