
O jornalista e influenciador Leonardo Stoppa, depois de anos de análises políticas progressistas, decidiu caminhar ao lado de Nikolas Ferreira na passeata golpista, que, como sabemos, terminou mal.
Ele, ferrenho crítico da direita, construiu sua imagem pública no campo progressista e agora se associa ao principal nome jovem do bolsonarismo.
Como justificativa, afirma que participou da caminhada em defesa das pessoas presas pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, alegando estar defendendo pobres vítimas do Estado, pais e mães afastados dos filhos, e, portanto, as próprias crianças.
Essa narrativa não se sustenta.
Quem participou de uma trama golpista sabia das consequências. Não se trata de vítimas ocasionais, mas de agentes de um projeto que atacou a democracia.
A justificativa ganha contornos ainda mais problemáticos quando Stoppa mobiliza sua história pessoal para explicar a mudança de lado. Ao relacionar sua disputa judicial pela convivência com a filha a esse posicionamento político, ele transforma uma questão privada em instrumento de legitimação pública. E, pior, envolve a própria filha nesse movimento.
Em um post no seu Instagram, o jornalista declarou que “essa comunidade (seus leitores) é minha família, e se tem uma coisa que eu jamais faria, seria trair vocês (…) não abandonei a esquerda, a esquerda nos abandonou.”
Aproveitou para fazer uma “crítica” ainda mais desonesta ao PT, que, segundo ele, “governa para a Faria Lima.”
Assim, sem mais justificativas, como se duvidasse da inteligência e do senso crítico de seu próprio público. “O discurso trabalhista deu lugar ao discurso identitário” — a desculpa mais comum de todo neobolsonarista que se considera um dissidente.
A verdade da qual ele também sabe é que o PT governa para o povo porque constrói políticas públicas que reduzem desigualdades, ampliam direitos. Até o crítico mais xiita do partido acredita nisso.
A explicação para a traição ao seu público e ao seu próprio legado é mais simples: Leo Stoppa já vinha se afastando de pautas progressistas como o feminismo e a justiça criminal.
O apoio a Nikolas não foi um episódio isolado, mas o ponto de consolidação de uma guinada que se desenhava há algum tempo.
Não é compaixão. É estratégia.
Caminhar ao lado de um político conservador e transfóbico em nome de uma suposta causa humanitária não é coerência política, é manipulação de discurso. E não funciona porque a leitura política não é autobiografia, ainda que ele a trate assim.
Também é difícil ignorar o contexto: sua perda de espaço no campo progressista e a visibilidade recuperada a partir da polêmica. Tornar-se “aquele que rompeu com a esquerda” passou a ser um novo lugar de relevância.
Não se trata de diálogo com a direita nem de crítica construtiva. Trata-se de validar a narrativa da extrema direita que tenta transformar crimes políticos em perseguição moral.
Defender quem participou de uma tentativa de golpe não é causa humanitária.
É relativizar um ataque direto à democracia.
Quando alguém muda de lado partindo de um lugar de informação e formação política, é porque escolhe conscientemente.
Não há nada de libertário em marchar com quem relativiza a democracia. Não há nada de humanitário em transformar criminosos políticos em símbolos emocionais.
O que existe é um cálculo: trocar um campo que já não o reconhecia por outro que o utiliza como prova simbólica de conversão.
Isso não é dissidência. É conveniência.