De sociólogo a fazendeiro: jornalista publica investigação sobre propriedades de FHC. Por Lu Sudré

PUBLICADO NO BRASIL DE FATO

POR LU SUDRÉ

Todos conhecem Fernando Henrique Cardoso (FHC), ex-presidente (1995-2002), cientista político e renomado sociólogo. No entanto, o tucano também é dono de grandes propriedades de terra, uma face até então desconhecida.

Lançado nesta terça-feira (30), o livro “O Protegido – Por que o país ignora as terras de FHC”, do jornalista Alceu Luís Castilho, traz detalhes sobre como FHC se consolidou como um grande e próspero fazendeiro, propriedades que nunca tiveram atenção da mídia.

“O Protegido” é publicado pela editora Autonomia Literária. Castilho também é autor do livro “Partido da Terra – como os políticos conquistam o território brasileiro” e fundador do De Olho nos Ruralistas, um observatório sobre agronegócio no Brasil.

A obra é uma continuação de uma reportagem do jornalista que questionou como o enriquecimento do ex-presidente, dono de duas propriedades em Botucatu, no interior paulista, nunca havia levantado suspeitas no Brasil.

Após anos afastado da empresa agropecuária Goytacazes Participações Ltda, o ex-presidente voltou a ser sócio dos seus filhos. Em 2018, o capital social da empresa era de R$ 5,7 milhões. Em um ano, saltou para R$ 8,9 milhões.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o autor adianta que o livro discorre sobre relações de FHC com empresários e pecuaristas. “O que estamos mostrando para o leitor é que há conflito de interesses relativos a trajetória – não só particular – do Fernando Henrique, com empresários como banqueiros do grupo Espírito Santo e a própria Odebrecht por exemplo”, diz Castilho.

De acordo com a obra, a “aventura agrária” do tucano se iniciou em parceria com Sérgio Motta, ex-ministro da Comunicação, por meio da compra de uma fazenda em Buritis (MG). Após a morte de Motta, o pecuarista Jovelino Mineiro, sócio de Emílio Odebrecht e figura central nas articulações do ex-presidente, tornou-se sócio dos filhos de FHC.

“Há um silêncio sobre Fernando Henrique que é um dos motivos do livro se chamar ‘O protegido’. É protegido pela Justiça e pela imprensa. O que observamos é uma imensa contradição entre o que foi feito com outro ex-presidente em relação ao sítio em Atibaia, por exemplo”, aponta a contradição, em referência às investigações relacionadas a supostas propriedades do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: Como foi o processo de apuração e construção desse livro? O que ele revela?

Alceu Castilho: O processo de apuração começou quando vi a delação do Emílio Odebrecht no Jornal Nacional, falando sobre caixa 2 para as campanhas de FHC. Em seguida, apareceu o Fernando Henrique, daquele jeito dele, dizendo que não era bem isso.

Pensei que mesmo com a restrição que tenho no Observatório [do agronegócio no Brasil], de lidar com a questão agrária como tema, que dava pra fazer bastante coisa por ele [FHC] ter tido terras, fazendas em Minas Gerais.

Comecei a apurar e a apuração resultou no livro. A relação e a conexão desconhecida do Fernando Henrique com a agropecuária se estende por vários tentáculos políticos, que desembocam, inclusive nessa relação com a Odebrecht.

O livro fala sobre o silêncio em relação às terras desconhecidas. Qual o tamanho desse patrimônio na cidade de Botucatu e qual a relação de FHC com a agropecuária?

As terras em Botucatu foram compradas em 2012 por Fernando Henrique e filhos, por meio de uma empresa chamada Goytacazes Participações. Tem um personagem do livro que faz a conexão entre diversos temas, entre a fazenda de Minas e o canavial em Botucatu, que se chama Jovelino Mineiro, que o Fernando Henrique chama carinhosamente de Nê, compadre do FHC. No “Diários da Presidência”, ele conta que recebeu, com o Nê, o Emílio Odebrecht no Palácio da Alvorada.

Esse Jovelino Mineiro tem muitas terras em Botucatu e, por coincidência, o FHC e seus filhos compraram o canavial do lado de uma empresa que pertencia ao Jovelino Mineiro. Esse canavial eram duas propriedades, uma de 36 hectares e outra de 205 hectares. Essa propriedade menor, comprada por R$600 mil em 2012, e desapropriada ano passado pela Prefeitura de Botucatu, prefeitura tucana, por R$5. Isso mesmo, R$5.

O que vai acontecer ali? A fazenda remanescente vai ser valorizada, seja pela irrigação imediata, seja porque agora a Prefeitura de Botucatu permitirá loteamento, permitirá a construção de chácaras de lazer. Não se sabe o quanto será valorizado.

Detalhe: A ideia da represa que motivou a desapropriação foi, segundo um blogueiro pró-Prefeitura de Botucatu, foi do próprio Jovelino Mineiro, o Nê. O Jovelino Mineiro está em todas. É sócio do Emílio Odebrecht em uma empresa de genética, ele coordenou o jantar, em 2002, que angariou recursos para o Instituto Fernando Henrique Cardoso, hoje Fundação FHC. Tudo passa pelo Jovelino Mineiro.

Essas negociações foram investigadas em algum momento?

Não, nada disso. A Lava Jato investigou e enterrou a denúncia do Emílio Odebrecht de caixa 2. Toda essa história de fazenda em Botucatu é absolutamente ignorada. Não só pela Justiça brasileira, mas pela grande imprensa.

Estou aqui falando com um veículo alternativo de imprensa. A Carta Capitaldeu uma capa no ano passado sobre o tema, mas os ‘jornalões’ e ‘revistões’ ignoram solenemente. Há um silêncio sobre Fernando Henrique que é um dos motivos do livro se chamar “O protegido”. É protegido pela Justiça e pela imprensa.

Claro que não estamos aqui acusando ninguém de cometer crime nenhum. Não é papel do jornalismo fazer isso. O que observamos é uma imensa contradição entre o que foi feito com outro ex-presidente em relação ao sítio em Atibaia, por exemplo, comparando com essas histórias todas.

O que estamos mostrando para o leitor é que há conflito de interesses relativos a trajetória – não só particular – do Fernando Henrique, com empresários como banqueiros do grupo Espírito Santo, também atuante em Botucatu. E a própria Odebrecht por exemplo.

Você trabalhou muito tempo no Estadão durante o governo FHC. Como essa proteção se dá no cotidiano das redações da grande mídia?

Primeiro, há um mecanismo que não envolve necessariamente nas reuniões de pauta, uma censura direta. Se tem a auto-censura de repórteres porque já sabem que o veículo não vai dar determinada matéria.

Você citou o Estadão. O repórter não vai emplacar uma matéria isenta em relação a camponeses, por exemplo, no Estado de S. Paulo. É muito difícil, quase impossível. Então, o próprio repórter já sabe que determinado tema não vai aparecer no jornal, com honrosas exceções aqui e ali, claro.

No caso do FHC, é claro que não só o Estadão, mas a imprensa brasileira, era muito simpática ao governo dele, particularmente o Estadão. A Folha até fez reportagens na época, denúncia de compra de votos e tal, não sei se hoje faria. Mas fez.

Então, se tem um mecanismo de silenciamento pela exclusão de pautas. Simplesmente não se pauta. Não é que se dará algo com determinado viés, vai dar em relação ao aniversário, inimigo ao normal. Em relação ao protegido, ele fica de fora.

Esse silêncio da mídia com a atuação do Judiciário que faz com que FHC se perpetue como intocável?

O FHC é um querido representante das elites. Agora que estamos com políticos particularmente grotescos no Palácio do Planalto, tanto o presidente quanto as pessoas que o cercam, ministros, filhos… parece que sobrou para a elite brasileira ter essa espécie de príncipe, de político limpinho, cheiroso e educado, ilustrado, que faz as vezes de príncipe mesmo. De uma pessoa em relação a qual se possa lavar a imagem para que essa elite pareça menos violenta e predadora que ela realmente é.

O que representa a publicação desse livro nesse cenário de crise do PSDB, da direita tradicional, que está buscando se reinventar? 

O Fernando Henrique nem sempre esteve de mãos dadas com a democracia. O livro mostra que houve articulações dentro do círculo do Fernando Henrique para, por exemplo, o golpe de 2016. O primeiro pedido de impeachment da Dilma Rousseff foi feito pelo advogado José de Oliveira Costa, que é advogado do Fernando Henrique. O José de Oliveira Costa que já representou o Jovelino Mineiro, aquele, o Nê, e o Emílio Odebrecht, em uma empresa de genética em que ambos são sócios.

Fora isso, existem pessoas do circuito da Fundação FHC que se deram muito bem com o golpe de 2016. Se tem a Fundação FHC funcionando na Sociedade Rural Brasileira, que foi um artífice do golpe de 64 e uma das primeiras artífices do golpe de 2016.

Da SRB, saíram membros que estão hoje no governo Bolsonaro ou que são bolsonaristas. O filho do Jovelino Mineiro, Bento Mineiro, que é pecuarista também, é fundador do Endireita Brasil ao lado do Ricardo Salles, ministro do meio ambiente, e do Frederico D’Avila, deputado estadual, ex-tucano e bolsonarista.

Então o Fernando Henrique tem um entorno de gente que não tem compromisso nenhum com a democracia. Ele faz essa pose de olímpico mas é evidente que o FHC mexeu pauzinhos para a derrubada do PT do poder. E o livro, apesar de começar falando da face agrária, acaba sendo um retrato de como a elite econômica funciona e como ela se articula a partir de determinados políticos-chaves, como é o caso do próprio Fernando Henrique.

Acredita que a obra trará algum impacto sobre o império do FHC?

Em relação ao Judiciário brasileiro, hoje temos um cenário sombrio de uma ação de marketing que se chama operação Lava Jato, se sobrepor ao conjunto do Judiciário. Nós mesmo, como imprensa, acabamos nisso. Não tem a operação Lava Jato na Constituição. O que tem é o Judiciário, o Ministério Público. Isso sim. Mesmo com todos os defeitos que existem, é preciso questionar e aperfeiçoar, lutar contra conforme o viés ideológico.

Agora, a operação Lava Jato é uma aberração em si. Com todo os abusos que conhecemos, que estamos apenas confirmando com a Vaza Jato. Não precisava ter vazado conversa de ninguém para sabermos que haviam essas distorções, por sinal.

Não acredito que desse mato saia muito coelho. Agora, não escrevemos reportagem e muito menos um livro apenas com o objetivo de influenciar diretamente essa ou aquela decisão, provocar uma investigação. Estamos contando aos leitores e esperamos que ajude a se contar história, até para a posteridade. Que pesquisadores daqui há 15, 20 anos, possam ler um livro diferente sobre o Fernando Henrique e, portanto, acessar uma fonte que não seja aquela ‘oficialesca’, bajuladora e etc, da grande massa de informações dos ‘jornalões’.

Temos essa função como jornalista na imprensa alternativa, de contar o outro lado, de fazer contraponto, de fazer contra-hegemonia, portanto.

Há um silenciamento da grande mídia sobre o lançamento do livro? 

Já está havendo. Era previsto e é um dos temas do livro, ironicamente. Com exceções que nem são tão exceções assim. A Carta Capital é uma exceção, se pensarmos em uma empresa corporativa, movida por anúncios e tal, mas sabemos que a Carta tem uma posição diferente dos demais veículos. De resto, só realmente no circuito alternativo que está vendo divulgação. Um ou outro jornal regional interessado, mas ‘jornalões’ e ‘revistões’ não.

Curiosamente esse livro foi lançado inicialmente em Paraty, durante a Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), evento paralelo à Flip, em uma mesa onde estava o Gleen Greenwald. Estava na mesa com ele, Gregório Duvivier e o professor Sérgio Amadeu, com mediação de Sabrina Fernandes.

Quando lancei o livro por lá, fiz uma crítica à imprensa. Havia jornalistas presentes que estavam lá por causa do Gleen, obviamente, e eu disse que diante do silêncio sobre essas terras do Fernando Henrique, que os jornalistas, inclusive aqueles presentes, não deveriam se intitular jornalistas investigativos como gostam de dizer.

E que também não deveriam citar a famosa frase do Millôr Fernandes que dizia: “Jornalismo é opção, o resto é armazém de secos e molhados”.

Qual a programação prevista para o lançamento da obra?

Até por essa omissão na imprensa, dependemos muito da divulgação de cada leitor, não só dos veículos independentes. Para que possamos espalhar essas informações pelo país, por outras cidades, por outras capitais.

O livro está previsto para ser lançado em Botucatu por causa do canavial do próprio Fernando Henrique, no Rio, com algumas sinalizações para outras cidades. Mas, precisamos espalhar mais.

Por outro lado, temos aspectos do livro que merecem ser ressaltados. Essa elite econômica e agropecuária lava a imagem a partir da cultura e das artes. O Fernando Henrique é presidente de honra da Fundação Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), o compadre dele, segundo a Miriam Dutra, mãe do filho caçula de Fernando Henrique, é o operador do FHC.

Aliás, o Jovelino Mineiro é genro do ex-governador paulista biônico Roberto de Abreu Sodré, dono do famoso apartamento em Paris. O Jovelino Mineiro é patrono da Flip. Quase todos os personagens da Flip, inclusive os Odebrechts, frequentam os conselhos do Masp, de organizações sociais e filantrópicas.

O livro é um passeio sobre os corredores das elites, que passam pelas artes e passam por uma lavagem de imagens. E a imprensa tem um papel fundamental nisso.

Edição: Rodrigo Chagas

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