
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Sou contra fingir normalidade onde ela não existe. Por vezes, sinto que nós tocamos violino enquanto o Titanic afunda – com a diferença que os músicos tentavam tornar a tragédia mais leve em 1912 e nós estamos jogando purpurina em cima da titica em 2026.
O debate (sic) entre Flávio Bolsonaro e Lula, na TV Bandeirantes, reforçou o que venho repetindo aqui feito um suricato com cãibra: o formato morreu. Ele ainda serve para dar audiência aos veículos de imprensa, que transmitem, relatam e analisam, e como estúdio gratuito de produção de cortes de vídeos pelas campanhas. As torcidas dos candidatos acompanharam excitadas, mas quem tinha mais o que fazer, ficou enjoado e mudou de canal.
A ascensão da extrema direita em todo o mundo, somada à migracão do epicentro do debate público da TV para as redes sociais e aplicativos de mensagens, deveria ter alterado também a estrutura dos debates. Mas isso não aconteceu. E agora muitos fazem beicinho de reprovação quando o show grotesco de ontem já eram favas contadas.
Privilegiar o confronto direto em uma eleição ultrapolarizada com um candidato de extrema direita que opera como um “moleque”, na definição perfeita de José Roberto Toledo, no UOL, é pedir para a coisa degringolar. Vai ter audiência, óbvio, mas não significa que servirá para alguma coisa.
Além disso, os mediadores de debates, jornalistas muito bem preparados, acabam se tornando bedéis da insanidade alheia devido a regras engessadas aprovadas pelas campanhas, quando poderiam pressionar os candidatos, não deixando que fugissem das questões e desmascarado mentiras com a ajuda de checadores de fatos em tempo real.
O contexto dos debates hoje não é igual ao de dez, 20 anos atrás. Por isso, Flávio teria vantagem e poderia dar uma chave de braço em seu adversário. Ele mente com facilidade e frequência, e, mesmo canastrão (nunca soara autêntico como seu pai) tem desenvoltura e melhor relação com as câmeras. Lula se perdeu várias vezes e ficava irritadiço ao cair em provocações. Mas a chave de braço não aconteceu, culpa da falta de respostas de Flávio (repetindo a tática evasiva que havia adotado na sabatina do Jornal Nacional), somada à agressividade e à soberba.
Por isso, o melhor momento foi quando Lula convidou o adversário a quebrarem juntos seus sigilos bancário e telemático. Flávio, claro, não aceitaria porque sairia de lá preso.
Lula: “Não é possível que você fale tanto sobre corrupção no debate e você não tome uma atitude. Eu tomei uma atitude e convidei Flávio para uma quebra de sigilo.” https://t.co/uAwOBkpdkR
— Central Reality (@centralreality) October 19, 2026
Mas, olha lá, eu tentando jogar minha pitada de purpurina na titica.
Porque é irresistível entrar na discussão sobre quem ganhou, quem perdeu, quem acertou o golpe mais baixo e quem saiu com a cara mais amassada. É exatamente essa a armadilha. Enquanto discutimos o desempenho dos candidatos, deixamos de discutir por que ainda aceitamos um formato que premia a mentira, a provocação e a capacidade de transformar a política em um espetáculo de quinta.
No fim, os veículos enchem seus espaços e faturam, as campanhas produzem seus cortes, as torcidas comemoram e os analistas distribuem medalhas. O eleitor, coitado, continua sem respostas.
E nós seguimos no convés do Titanic. Mas não se preocupem, temos muita purpurina.