Decisão de Trump sobre PCC e CV passou por influência bolsonarista, avalia governo Lula

Atualizado em 12 de março de 2026 às 11:11
Jair e Eduardo Bolsonaro ao lado de Marco Rúbio. Foto: reprodução

Diplomatas brasileiros e auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) identificaram nos últimos dias sinais de retomada da influência de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas decisões da Casa Branca. Segundo avaliações feitas no Palácio do Planalto e no Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a articulação envolve integrantes do governo de Donald Trump ligados à ala mais radical do movimento Maga (Make America Great Again).

A leitura do governo brasileiro, segundo o g1, é que a proposta de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas teria surgido dessa articulação. Na avaliação de diplomatas, a iniciativa buscaria criar constrangimentos políticos para Lula em ano eleitoral.

Nos bastidores, integrantes do governo consideram que a classificação poderia abrir caminho para sanções contra instituições financeiras brasileiras e até justificar intervenções militares estrangeiras no país, o que seria interpretado como afronta à soberania nacional.

No Palácio do Planalto, a avaliação é que o grupo mais radical ligado a Trump havia perdido força após o fracasso do chamado tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras. Nas últimas semanas, porém, essa influência teria voltado a crescer, especialmente no Departamento de Estado dos Estados Unidos, atualmente chefiado por Marco Rubio.

Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Roberto Schmidt/Getty Images/AFP

Oficialmente, o governo brasileiro não comentou a movimentação. A estratégia diplomática tem sido atuar de forma discreta nos bastidores. Em caráter reservado, porém, diplomatas demonstraram irritação com o que classificaram como um “balão de ensaio” promovido por setores mais radicais do trumpismo.

“Já produziram o tarifaço e os prejuízos do ano passado. Seguem tentando causar dano a qualquer custo. Só mudou o assunto, depois que o tarifaço naufragou”, afirmou uma fonte do Itamaraty.

Entre os nomes ligados ao movimento Maga citados nas avaliações do governo brasileiro está Darren Beattie, assessor de Trump para temas relacionados ao Brasil. Ele foi nomeado para o cargo no fim de fevereiro e tem histórico de críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao governo brasileiro.

Nesta semana, o ministro Alexandre de Moraes autorizou um encontro entre Beattie e Jair Bolsonaro na prisão, mas em data diferente da solicitada inicialmente. A defesa do ex-presidente recorreu da decisão.

Diante do cenário, o governo brasileiro iniciou uma ofensiva diplomática para tentar evitar que a classificação das facções avance em Washington. No sábado, o chanceler Mauro Vieira telefonou para Marco Rubio e pediu que nenhuma decisão fosse tomada antes de uma eventual reunião entre Lula e Trump, ainda sem data definida.

Lula também conversou por telefone com os presidentes Gustavo Petro, da Colômbia, e Claudia Sheinbaum, do México. Embora as notas oficiais não mencionem o tema, ambos os países enfrentam desafios semelhantes com organizações criminosas classificadas como terroristas pelos Estados Unidos.

A Embaixada do Brasil em Washington também atua junto a parlamentares, sobretudo democratas, para tentar barrar a proposta caso ela seja encaminhada ao Congresso estadunidense.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.