Delegada da PF recoloca os pingos nos “is” nas conversas de Machado. Por Mauro Santayana

PUBLICADO NO BLOG DE MAURO SANTAYANA

Independentemente da simpatia (ou da antipatia) de cada um por Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney, que, como qualquer homem público, contam com apoiadores e com adversários em Brasília e em seus respectivos estados, não há outra coisa a fazer, para quem defende a democracia no Brasil, a não ser comemorar a decisão – corretíssima – da delegada da Polícia Federal Graziela da Costa e Silva, de descaracterizar a acusação de tentativa de “obstrução de justiça” que pesava contra eles, no contexto de gravações telefônicas premeditadamente feitas por Sérgio Machado, com a intenção de fazer jus a “delação premiada”.

Como já dissemos aqui, a Operação Lava-Jato tem sido tratada, pelos membros de sua Força-Tarefa, por boa parte de procuradores e juízes e delegados da Polícia Federal – muitas vezes por meio de suas associações de classe – e por podeosos segmentos da mídia, como um inatacável e impoluto tabu, uma espécie de vaca sagrada que merecesse uma estátua em cada esquina, e tivesse o dom de transformar automaticamente em leproso, bandido ou corrupto qualquer um que ousasse – como ocorre com Lula, por exemplo – criticá-la.

Quando, na verdade, trata-se de uma iniciativa com nefastas consequencias políticas e econômicas, que:

– abriu caminho para a defesa do golpe de 2016 junto à opinião pública.

– Cresceu com a desestabilização do equilíbrio institucional necessário à governabilidade e ao exercício normal da democracia.

– Promoveu, direta e indiretamernte, a destruição da engenharia brasileira e de nossas maiores empresas, dentro e fora do país, com a interrupção e o sucateamento de dezenas de projetos e programas estratégicos nas áreas de petróleo e gás, infraestrutura e defesa, no valor de dezenas de bilhões de dólares.

– Quebrou milhares de acionistas, investidores e fornecedores ligados a essas empresas e levou à demissão de milhares de trabalhadores nos últimos três anos.

– Com a criminalização permanente da política, está ajudando a abrir espaço para o fascismo, levando pela primeira vez na história uma candidatura de extrema-direita a se tornar viável, senão favorita, para as próximas eleições presidenciais.

Quem aceita que Sarney, Renan e Jucá cometeram crime ao criticar a Operação Lava-Jato e até mesmo ao discutir sua eventual interrupção ou descontinuidade, reconhece, ingênua, hipocrita ou seletivamente, nela, algum ganho, quando não houve quase nenhum, quando comparado às perdas que acarretou para o país e para a sociedade brasileira.

Corruptos comprovados estão em sua maioria soltos, o país encontra-se inerme frente a seus concorrentes externos, levaremos uma geração para sair do buraco em que nos metemos – também graças às “reformas” e PECS do governo Temer – estrategicamente.

E corrobora indiretamente teses e desmandos moronianos, como o que acusou Dilma do mesmo crime de “obstrução de justiça”, quando tentou nomear para a Casa Civil Luís Inácio da Silva e foi inconstitucionalmente grampeada junto com o ex-presidente, com imediato vazamento do conteúdo da conversa – quem não se lembra do aproveitamento do “tchau, querida” por seus adversários? – para certos meios de comunicação.
Ao confabular com Sérgio Machado pelo telefone, Sarney, Jucá e Calheiros estavam fazendo – como reconheceu, recolocando os pingos no is, a delegada Graziela Costa e Silva – política, como fazem, ou deveriam fazer, livremente, a qualquer momento, deputados e senadores – eleitos por milhares de votos – de qualquer partido.

E como não deveriam fazer procuradores e juízes que, além de se dedicar mais do que deveriam ou poderiam, a essa atividade, ilegalmente, dão entrevistas – como se fossem autoridades de primeiro escalão – para câmeras “aliadas” de televisão, ou fazem palestras eventualmente pagas por instituições “apoiadoras”, para um público simpatizante ou manipulado, dentro e fora do Brasil.

Isso, quando não organizam eventos, sobre Segurança Pública e “Bandidolatria”, com a presença do Procurador Geral do Estado e de juízes de tribunais superiores cariocas, como está fazendo o Ministério Público do Rio de Janeiro – em fato muitíssimo mais grave, politicamente – com a presença, como palestrante e um dos convidados de honra, do “líder” de um movimento neofascista como o MBL , o “senhor” Kim Kataguiri.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!