
Uma apuração da NPR (National Public Radio), rede pública de rádio dos Estados Unidos financiada por doações, fundações e estações afiliadas, concluiu que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos reteve e retirou do banco de dados público documentos do caso Jeffrey Epstein que mencionam o presidente Donald Trump.
Segundo a reportagem, parte dos arquivos envolve alegações de que Trump teria cometido abuso sexual contra uma menor décadas atrás. Há indícios de que mais de 50 páginas com entrevistas do FBI e anotações de agentes não foram disponibilizadas, apesar de lei que determina a divulgação.
A análise comparou números de série presentes em documentos públicos, registros do FBI, e-mails e materiais de descoberta judicial liberados no fim de janeiro. O cruzamento aponta dezenas de páginas catalogadas pelo Departamento de Justiça que não aparecem no sistema aberto ao público.
O órgão não respondeu diretamente às perguntas sobre o conteúdo e o motivo da ausência dos arquivos. Após a publicação da matéria, a porta-voz Natalie Baldassarre reiterou que eventuais documentos não divulgados estariam protegidos por sigilo legal, duplicidade ou vínculo com investigação federal em curso.
Reação no Congresso
O deputado democrata Robert Garcia, integrante do Comitê de Supervisão da Câmara, declarou ter revisado registros não editados no Departamento de Justiça e afirmou que entrevistas do FBI com uma sobrevivente que acusou Trump teriam sido retidas de forma ilegal. Democratas já investigam as acusações e anunciaram apuração paralela sobre a conduta do DOJ.
Em carta enviada ao Congresso em 14 de fevereiro, a procuradora-geral Pam Bondi e o vice Todd Blanche sustentaram que nenhum documento foi omitido ou editado por constrangimento, dano reputacional ou sensibilidade política.
As acusações
De acordo com os arquivos liberados, o FBI circulou internamente, em julho e agosto de 2025, uma lista de alegações ligadas a Epstein que mencionavam Trump. A maioria foi classificada como não verificável.
Uma das denúncias descreve que, por volta de 1983, quando a mulher tinha cerca de 13 anos, Epstein a teria apresentado a Trump, que teria cometido agressão sexual. Nos milhões de páginas divulgadas até agora, essa acusação aparece apenas em listas internas e em uma apresentação de slides do Departamento de Justiça.
Registros indicam que o FBI entrevistou essa mulher quatro vezes. Apenas a primeira entrevista, de julho de 2019, está disponível publicamente — e nela não há menção a Trump. Documentos adicionais, inclusive anotações de três entrevistas, não constam na base aberta. A investigação aponta que 53 páginas relacionadas a esse caso estejam ausentes.
Em outro registro de julho de 2025, um agente escreveu que o nome de Trump aparecia nos arquivos e que “uma vítima identificada alegou abuso por Trump, mas depois se recusou a cooperar”.
Depoimento sobre Mar-a-Lago

Outra mulher, que foi testemunha central no julgamento criminal de Ghislaine Maxwell — condenada a 20 anos por tráfico sexual — relatou ao FBI que conheceu Trump no clube Mar-a-Lago quando tinha cerca de 13 anos. Segundo o relatório, Epstein a apresentou a Trump com um comentário sugestivo. Em ação judicial de 2020, ela afirmou ter se sentido desconfortável, embora não entendesse o motivo na época.
Parte dessa entrevista foi retirada do site do Departamento de Justiça após a divulgação inicial em 30 de janeiro e republicada em 19 de fevereiro, conforme metadados do documento. O órgão declarou que arquivos podem ser removidos temporariamente quando vítimas ou advogados pedem revisão adicional.
Outras entrevistas que mencionam o encontro da jovem com Trump também foram removidas e depois restauradas. Um depoimento da mãe da vítima permanece fora do ar. Após questionamentos, o Departamento de Justiça informou que o material exigia novas edições antes de republicação.
Resposta da Casa Branca
A Casa Branca afirmou que Trump “fez mais pelas vítimas de Epstein do que qualquer outro antes dele” e que foi totalmente exonerado em relação ao caso. Também declarou que os arquivos contêm “alegações falsas e sensacionalistas” sobre o presidente.
Críticas ao tratamento dos arquivos
O advogado Robert Glassman, que representa uma das mulheres que testemunhou contra Maxwell, criticou a forma como o Departamento de Justiça conduziu a divulgação. Segundo ele, o órgão deveria garantir transparência sobre a rede criminosa de Epstein e Maxwell, mas acabou expondo nomes de vítimas que buscavam anonimato.
O Departamento de Justiça declarou que trabalha continuamente para atender às preocupações das vítimas e revisar eventuais falhas nas edições de dados pessoais, reconhecendo que, devido ao volume de material, o site pode conter informações sensíveis divulgadas de forma inadvertida.