Depoimento de Carla Zambelli reforça suspeita de que ela tentou comprar Moro a mando de Bolsonaro. Por Joaquim de Carvalho

Bolsonaro, Carla Zambelli e Moro

A defesa de Sergio Moro diz que o depoimento da deputada federal Carla Zambelli não trouxe nenhuma novidade em relação ao que já se tornou público.

Na véspera da demissão do então ministro da Justiça, ela mandou mensagem a Moro para que aceitasse a nomeação de Alexandre Ramagem, amigo da família Bolsonaro, para a direção-geral da Polícia Federal.

Em troca, se ofereceu para convencer Bolsonaro a assumir um compromisso público de sua indicação para o Supremo Tribunal Federal. Moro respondeu:

— Prezada, não estou à venda.

Ontem, após o depoimento,  o advogado Rodrigo Sánchez Rios disse:

“Não tem nada de novo. Não tem nenhum dado novo.”

No entanto, apesar do que informou o advogado de Moro, houve, sim, novidade.

Carla Zambelli disse que foi procurada por dois auxiliares diretos de Bolsonaro para tentar convencer o ministro da Justiça a permanecer no governo.

Segue um trecho do depoimento:

“QUE se recorda ainda de ter estabelecido contato naquela oportunidade com FABIO WAJNGARTEN e com o ministro RAMOS, e ambos sugeriram que a depoente continuasse a manter contato com SERGIO MORO, ‘fazendo o possível’ para que o mesmo permanecesse como ministro; QUE na sua percepção, caso o ex-ministro SERGIO MORO não tivesse exoneração na sexta-feira, haveria tempo hábil no fim de semana para composição do nome do novo Diretor da Polícia Federal.”

O elo entre Bolsonaro e Zambelli pode ser este. Mas não só.

É provável que a deputada tenha falado diretamente com Bolsonaro, já que mantinha com ele linha direta, conforme demonstrou em um programa de TV.

Numa entrevista ao bolsonarista Luís Ernesto Lacombe, na Band, para demonstrar que Bolsonaro era acessível, Carla Zambelli telefonou ao vivo para o presidente, que estava em Porto Alegre, na posse do novo comandante militar do Sul.

E Bolsonaro atendeu.

Além disso, como Carla Zambelli sabia que o indicado de Bolsonaro era Ramagem?

Àquela altura, o que se dizia na imprensa é que Bolsonaro tinha decidido nomear um novo diretor-geral da PF, mas não havia definição quanto ao nome.

Ao oferecer vantagem a Moro em troca da aceitação do nome já definido por Bolsonaro, Carla Zambelli pode ter cometido crime — corrupção passiva e/ou advocacia administrativa.

A PF decidiu não indiciá-la ontem — talvez esperando por decisão do STF —, mas é evidente que uma das medidas necessárias para elucidar a suspeita de que Bolsonaro queria interferir na polícia é investigá-la.

Para isso, teria que quebrar o sigilo telefônico e telemático dela e apreender o celular, se é que ela ainda mantém o aparelho que usou para a troca de mensagem com Moro.

Caminho para investigação há, basta a Polícia Federal e o Ministério Público Federal desejarem fazer o serviço.

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