Depois da Groenlândia, Trump faz planos para anexar o Canadá

Atualizado em 7 de janeiro de 2026 às 16:49
O presidente dos EUA Donald Trump. Foto: Divulgação

Canadenses acompanham o ataque dos Estados Unidos à Venezuela tentando medir seus efeitos globais. A ideia de distância, porém, perde força quando se observa o mapa. A Venezuela está a cerca de 1 700 quilômetros do território americano, enquanto o Canadá divide com os EUA uma fronteira longa e sem defesa militar permanente. Essa proximidade transforma um conflito externo em motivo direto de apreensão.

Washington justificou a ofensiva contra Caracas com a acusação de que a Venezuela seria um narco-state, expressão usada para definir países cujas instituições estariam ligadas ao tráfico de drogas. No discurso oficial, isso serviria para diferenciar a Venezuela de aliados. O Canadá, por exemplo, mantém a venda de cannabis dentro da legalidade. Mesmo assim, o presidente Donald Trump já acusou Ottawa de facilitar a entrada de fentanil nos Estados Unidos, impôs tarifas e classificou o país como ameaça à segurança nacional.

Dados oficiais mostram que o Canadá responde por menos de 1% das apreensões de drogas na fronteira bilateral. Ainda assim, o episódio reforçou a percepção de que acusações desse tipo podem ser acionadas conforme a conveniência política.

O petróleo é outro elemento central. A Venezuela é frequentemente descrita como um petrostate, isto é, um país cuja economia depende fortemente da exploração de petróleo, e possui as maiores reservas comprovadas do mundo. O paralelo canadense aparece na província de Alberta, que concentra a quarta maior reserva comprovada de petróleo bruto do planeta. Grande parte dessa produção segue para refinarias americanas, o que insere o tema no debate sobre segurança energética dos EUA.

A cooperação militar entre Canadá e Estados Unidos costuma ser apontada como fator de estabilidade, sobretudo no âmbito do Norad. A sigla se refere ao North American Aerospace Defense Command, ou Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte. Criado em 1958, o Norad é uma estrutura binacional responsável por monitorar o espaço aéreo e marítimo do continente e detectar possíveis ameaças. Militares canadenses e americanos atuam de forma integrada, o que historicamente simbolizou confiança mútua.

Esse quadro passou a ser tensionado por declarações recentes da Casa Branca sobre a Groenlândia e até sobre a possibilidade de o Canadá se tornar o “51º estado” americano. A Groenlândia é um território autônomo ligado à Dinamarca, país membro da OTAN — a Organização do Tratado do Atlântico Norte. A OTAN é uma aliança militar baseada no princípio da defesa coletiva: um ataque contra um integrante é tratado como ataque contra todos.

Publicação de Donald Trump mostra ambos os territórios dos EUA e do Canadá cobertos por uma bandeira americana. Foto: Reprodução

A tensão aumentou após Trump afirmar que os Estados Unidos “precisam” da Groenlândia por razões de segurança nacional. O vice-chefe de gabinete, Stephen Miller, declarou que ninguém enfrentaria militarmente os EUA pelo futuro da ilha e descreveu a ordem internacional como regida pela força.

Copenhague reagiu de forma dura. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, classificou as falas como “pressão inaceitável” e alertou que um ataque a qualquer país da OTAN colocaria toda a aliança em risco. O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também rejeitou qualquer discussão sobre anexação.

No Canadá, o governo buscou alinhar-se publicamente à Dinamarca. O primeiro-ministro Mark Carney declarou que apenas os groenlandeses podem decidir seu próprio futuro. A ministra das Relações Exteriores, Anita Anand, anunciou a abertura de um consulado canadense na Groenlândia, em iniciativa conjunta com a governadora-geral Mary Simon.

Esses movimentos diplomáticos passaram a ser acompanhados de perto pela imprensa americana, em especial por veículos conservadores como a Fox News. Embora autoridades canadenses não esperem uma mudança imediata de posição em Washington, o debate interno se intensificou.

Analistas alertam que um eventual ataque à soberania da Groenlândia, mesmo sob o argumento de proteção contra ameaças russas, criaria precedentes. A mesma lógica poderia ser usada, no futuro, contra o próprio Canadá.

Para parte da comunidade acadêmica e diplomática, a sequência Venezuela–Groenlândia–Canadá indica um padrão. A diferença decisiva é geográfica: o Canadá está muito mais próximo de uma possível linha de confronto, ao longo de uma fronteira extensa e desguarnecida, o que torna cada declaração vinda de Washington motivo de atenção redobrada.