Depois de dizer que está arrependida de ajudar a eleger Bolsonaro, agora só falta Janaína pedir desculpas a Dilma. Por Joaquim de Carvalho

Janaína Paschoal

Dois dos três autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff defenderam hoje o afastamento de Jair Bolsonaro da presidência da república.

O terceiro, Hélio Bicudo, já faleceu.

O jurista Miguel Reale Júnior sugeriu a formação de uma junta médica para avaliar a sanidade mental de Jair Bolsonaro.

Um homem com pleno domínio de suas faculdades mentais não desrespeitaria orientação médica e participaria de um ato público que expõe todos ao risco de contágio.

Jair Bolsonaro está, tecnicamente, em quarentena, por ter viajado com pessoas infectadas pelo coronavírus.

Janaína Paschoal, a quem Bolsonaro deve, em grande parte, sua eleição, foi mais longe.

“Eu me arrependi do meu voto. Que país é esse? Como é que esse homem vai lá, potencialmente contaminando as pessoas, pegando nas mãos, beijando. Ele está brincando? Ele acha que ele pode tudo? As autoridades têm que se unir e pedir para ele se afastar. Nós não temos tempo para um processo de impeachment. Nós estamos sendo invadidos por um inimigo invisível.”

O discurso de Janaína foi no pequeno expediente da Assembleia Legislativa, quando os deputados estaduais podem fazer discursos de até 5 minutos.

Normalmente, esse tempo é utilizado para comunicações sem grande relevância política.

Janaína, que chegou a ser cotada para ser vice na chapa de Bolsonaro, usou o pequeno expediente para fazer um discurso duro.

E falou sobre o que conhece: os bastidores do bolsonarismo.

Ela sugeriu que a live de Bolsonaro na última quinta-feira, em que pediu o adiamento dos atos contra o Congresso e o STF, foi pura encenação.

“Como um homem, que faz uma live na quinta e diz para não ter protestos, vai participar desses mesmos protestos e manda as deputadas que são paus-mandados dele chamar o povo para rua?”, comentou.

O discurso que Janaína fez na Assembleia lembrou o da jararaca, quando rodou a bandeira e defendeu a saída de Dilma Rousseff.

Naquele caso, não havia crime de responsabilidade que justificasse a saída da presidente da república.

Mas agora há.

O mais importante nesse discurso, no entanto, não é o aspecto técnico — “é inadmissível, é injustificável, é indefensável, crime contra a saúde pública”, nas palavras de Janaína.

É seu valor simbólico.

Janaína teve mais de 2 milhões de votos — recorde na Assembleia Legislativa —, e se consolidou como representante daqueles que vestiram camisa da CBF e foram à Paulista protestar, entre 2013 e 2016.

Até agora, ela e Bolsonaro tinham esse mesmo eleitor. Pelo discurso de Janaína, vê-se que não são mais os mesmos.

Se é verdade que, com seu discurso, Janaína deixa de ser vista como representante de uma parcela dos eleitores ainda fiéis a Bolsonaro, o contrário também ocorre.

Mentiroso, indigno de confiança, irresponsável, Bolsonaro começa a perder apoio em seu campo político. É o significado da manifestação de Janaína. Para o discurso ser perfeito, só faltou pedir desculpas a Dilma Rousseff. Ou ao Brasil por ter ajudado a construir uma farsa que deu em Bolsonaro.

Difícil imaginar que haverá reconciliação entre ela e Bolsonaro, depois dessas palavras duras.

Antes mesmo do discurso de Janaína, o professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, que foi ministro nos governos de José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, já tinha dito que o governo Bolsonaro acabou.

Na visão dele, poderia chegar até o final de 2022, mas sem força nenhuma, tendo em vista a deterioração de suas condições políticas.

Agora já se vê desenhado o cenário em que Bolsonaro possa sair antes mesmo do encerrado o mandato.

Havia (e há) crimes de responsabilidade, mas não ambiente politico.

Isso mudou. Começa a se formar o consenso de que o Brasil não aguentará mais dois anos e nove meses da presidência de um inepto que demonstra não ter escrúpulo nem vergonha.

Deu, Jair. Vai chefiar sua gangue e desocupe a Presidência da República.

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Veja também:

A íntegra do discurso em que Janaína pediu o afastamento de Bolsonaro