Deputado de direita diz ao DCM que parlamentares aliados de Guaidó “cometeram irregularidades”

O deputado venezuelano Edgar Zambrano (FOTOS FANIA RODRIGUES)

POR FANIA RODRIGUES, de Caracas

A oposição venezuelana está em guerra interna. Com a aproximação da eleição para a mesa diretora da Assembleia Nacional, prevista para o dia 5 de janeiro de 2020, o único órgão do Estado venezuelano controlado pela oposição vive dias de intensa disputa política. É nesse contexto que surgem denúncias de corrupção de diferentes envergadura e gravidade.

Em entrevista ao Diário do Centro do Mundo o vice-presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, o deputado Edgar Zambrano, presidente da Comissão Especial de Investigação, confirmou que encontrou irregularidades na Comissão da Controladoria desse parlamento.

“Existe irregularidade. Não podemos apontar ainda quem cometeu ou estabelecer responsabilidades porque a investigação está em curso. Ainda temos que escutar depoimentos de deputados que vão declarar na segunda e na terça-feira da semana que vem. Na última quarta-feira escutamos a quatro deputados”, explicou o deputado Zambrano, do partido Ação Democrática, de linha política opositora ao governo de Nicolás Maduro.

A investigação foi aberta, essa semana, depois que 12 deputados de direita, dos partidos Voluntad Popular, de Juan Guaidó, assim como Primeiro Justicia e Un Nuevo Tiempo, que integravam a Comissão da Controladoria da Assembleia Nacional (congresso) foram acusados de participar de um esquema de corrupção pelo site de notícias Armando Info, de linha editorial de direita.

De acordo com o deputado Zambrano, a suspeita é de que esses deputados venezuelanos tenham cobrado propina de empresários, venezuelanos e colombianos, para mediar negociações junto a governos como o da Colômbia e dos Estados Unidos, mas também de alguns países europeus.

O objetivo seria a suspensão de sanções econômicas aplicadas por esses países contra empresários que mantém negócios com o governo venezuelano, no ramo de exportação de alimentos para a Venezuela. Os deputados teriam enviado cartas a esses governos certificando que não havia investigação em curso contra esses empresários.

O presidente do Congresso, Juan Guaidó, do partido Voluntad Popular ordenou o afastamento dos deputados de suas funções na Comissão da Controladoria e designou dois de seus principais aliados na Assembleia para coordenar os trabalhos de investigação: os deputados Edgar Zambrano e Stalin Gonzalez.

Foram solicitados documentos a países como França, Portugal, Bulgária, Colômbia, Estados Unidos, entre outros, que poderiam ter recebido documentos falsos, segundo o deputado Zambrano, emitidos pela Comissão de Controladoria da Assembleia Nacional.

Zambrano afirma que já nos primeiros dias de investigação foi possível encontrar provas e indícios de ilegalidade na atuação de deputados dessa Comissão, mas não detalhou que indícios seriam esses. “Já temos algumas provas e depoimentos que indicam que houve irregularidades, mas não seria ético de minha parte divulgar informações antes que concluir os trabalhos de investigação”, ressaltou Edgar Zambrano.

A primeira etapa da investigação será concluída no dia 18 de dezembro, quando será divulgado um relatório com as conclusões e recomendações da Comissão Especial de Investigação. Caso os deputados sejam considerados culpados a pena máxima é a perda do mandato, mas não seriam processados pela Justiça. “A Comissão parlamentar só pode estabelecer penalidade política”, explicou Zambrano. Isso por que a Assembleia Nacional não reconhece a legitimidade das demais instituições do Estado venezuelano, nem mesmo o Ministério Público e o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ).

Porém, Zambrano não descartou completamente fazer uma recomendação de investigação ao MP. “Devido à dicotomia que vivemos na atualidade, vamos esperar que ocorra os fatos concretos. Vamos apresentar um relatório, que será votado em plenário. Mas o dever de uma institucionalidade, em pleno reconhecimento dos poderes de uma democracia, quando se estabelece a responsabilidade política de parlamentares, isso deve ser enviado aos órgãos de Justiça. Assembleia Nacional nesse caso teria que remeter o caso ao Ministério Público”.

Zambrano, Guaidó e Stalin Gonzalez

Quem é o corrupto?

Três dos deputados do partido Primiero Justiça, acusados por Guaidó acusados de envolvimento na trama de corrupção rebateram as declarações. O deputado José Brito, do partido Primero Justicia, firma que “o verdadeiro corrupto é Juan Guaidó”. Segundo o parlamentar acusação foi orquestrada pelo próprio Guaidó depois que um grupo de 70 deputados opositores entregou uma carta ao presidente do Congresso pedindo explicações sobre o destino dos recursos doados para ajuda humanitária.

“Acusam-me de liderar uma rebelião de deputados opositores contra Guaidó, mas o que existe aqui é muito descontentamento. O próprio embaixador da Colômbia e a ela nueva chanceler colombiana reconhecem, em uma conversa vazada recentemente, que em Cúcuta (durante ação opositora liderada por Guaidó, para ingressar ajuda humanitária) houve desvio de dinheiro”, declarou o deputado José Brito em entrevista coletiva essa semana. Brito denunciou ainda que o líder da oposição teria comprado uma casa noturna em Madri, na Espanha, em nome de um laranja.

“Essa é uma rebelião de alguns deputados que estamos cansados de que esses senhores tenham convertido-se nos novos ricos. “Onde está o ‘Guayaba’, Rafael Rojas, assessor econômico desse senhor (Guaidó)? Comprou uma discoteca em Madri e ele é testa de ferro de Guaidó”.

Outro que acusou Guaidó de corrupção foi o deputado Conrado Pérez. “Eu estava preocupado com o que aconteceu em Cúcuta (com as investigações contra aliados de Guaidó na Colômbia). Disse ao presidente Guaidó que era necessário criar uma comissão para investigar o que aconteceu. Ele me disse: vamos esperar isso esfriar e fica por isso mesmo”, denunciou Pérez.

Em junho o Ministério Público colombiano abriu uma investigação contra assessores ligados a Juan Guaidó, por suspeita de desvio de recursos doados que seriam investidos em ajuda humanitária, além de ativos e dinheiro público do Estado venezuelano, entregues pelo governo colombiano a Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino da Venezuela em janeiro desse ano. Esse escândalo também foi destapado pelos próprios meios de comunicação de direita, os mesmos que em algum momento apoiaram a Guaidó.

Assim também o deputado Luis Parra, criticou a atuação de Juan Guaidó como líder da oposição e diz tratar-se de uma retaliação devido a posição crítica em relação ao presidente da Assembleia Nacional. “Desde o início tenho dito que meu partido precisa confrontar a Juan Guaidó, para que ele nos diga qual o caminho político que propõe. Se isso não está claro eu não vou seguir enganado às pessoas”. Parra confirmou a existência de uma carta assinada pelos deputados cobrando de Guaidó explicações e uma prestação de contas de recursos recebidos. Isso teria acontecido, segundo ele, há aproximadamente, 25 dias. E falou sobre o ambiente no Congresso. “Existe um mal-estar geral”.

O deputado opositor questionou ainda a legitimidade de Guaidó como “presidente interino”. “Guaidó antes de ser presidente da Assembleia Nacional não era ninguém. Depois disse ele encarnou um governo parlamentar e tem que render contas a nós. O povo não votou em Juan Guaidó para presidente. Nenhum eleitor votou para que Guaidó fosse presidente interino da Venezuela. Juan Guaidó é produto de um governo parlamentar. Essa é a verdade”, destacou o deputado Luis Parra.

O Diário do Centro do Mundo conversou com outro deputado opositor, acusado de participar do esquema de corrupção, mas diferente dos demais ele defende a Juan Guaidó e a investigação da Comissão Especial da Assembleia Nacional. O deputado William Barrientos, do partido Un Nuevo Tiempo, diz que existe um plano para desmoralizar a oposição. “Não vão conseguir, porque no dia 5 de janeiro vamos eleger outra vez o presidente Juan Guaidó”.

Segundo o deputado é importante concluir as investigações antes do dia da eleição da mesa diretora. “É importante porque a corrupção é um flagelo que tem destruído a moral pública”. Mas, quando o tema é a acusação contra Juan Guaidó o deputado afirma que “ele não tem porque se submeter a uma investigação se ele não recebeu recursos destinados a ajuda humanitária”.

O deputado William Barrientos diz que esses recursos não estão com Juan Guaidó. “Jamais foi entregue dinheiro à direção da Assembleia Nacional ou ao presidente Juan Guaidó”, garante Barrientos.

Essa onda de denúncia contra Guaidó começou antes mesmo do escândalo envolvendo os deputados opositores. Depois de ser demitido, o “ex-embaixador” designado pelo líder opositor na Colômbia, Calderon Berti, fez uma série de acusações à imprensa na semana passada. Berti atribuiu sua demissão ao seu apoio às investigações sobre possível envolvimento de assessores de Juan Guaidó em desvios de recursos em Cúcuta, cidade colombiana localizada na fronteira com a Venezuela. “Há documentos onde eles falavam de prostitutas, de coisas indevidas, do mau uso dos recursos”, disse Berti na entrevista coletiva em Bogotá.

Para a direção política do chavismo os dois grupos opositores estão disputando o protagonismo para a eleição do dia 5 de janeiro, segundo o deputado da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e vice-presidente do Partido Socialista Unidos da Venezuela (PSUV). Cabello disse ademais que “todos ele têm razão” em suas acusações. “Essa é uma briga entre delinquentes, para ver quem administra o dinheiro que vem dos EUA. Assim é que estão roubando aos venezuelanos. É triste a vida de um eleitor opositor, hoje,quando vê essa situação, envolvendo pessoas que ele confiou.

De acordo com Diosdado Cabello, o segundo líder político mais importando chavismo, depois do presidente Nicolás Maduro, esses escândalos refletem a atual situação da oposição venezuelana. “A oposição está em seu pior momento. Nunca antes esteve tão mal. Isso tem a ver com quem dirige a oposição nesse momento”, disse o deputado socialista.

Deputado José Brito discursa contra Guaidó

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