
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Donald Trump levou uma surra dos trabalhadores, dos migrantes, dos democratas. Mas o problema não é apenas o Congresso perdido, que vai transformar seus próximos dois anos numa corrida de obstáculos. No fundo, arde também outra coisa. O presidente foi atingido onde lhe dói mais: no seu gigantesco ego. Órgão que, no caso dele, tem proporções globais.
No Texas, o presidente atacou James Talarico em comícios por todo o país, usando-o como símbolo nacional dos democratas, e ele e seus aliados, como Elon Musk, despejaram milhões de dólares na disputa. Resultado? Talarico venceu Ken Paxton e se tornou o primeiro democrata a ganhar uma eleição para o Senado no Texas desde 1988.
Em Michigan, Abdul El-Sayed derrotou o republicano Mike Rogers superando uma campanha de ataques liderada pelo próprio Trump, que chegou a dizer que qualquer negro ou judeu que apoiasse El-Sayed seria maluco. Será o primeiro senador muçulmano da história do país.
E não parou no Senado. Os eleitores escolheram governadores que funcionam como antídoto à extrema direita. Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms derrotou o empresário republicano Rick Jackson e se tornou a primeira mulher negra eleita governadora na história dos Estados Unidos. No Novo México, Deb Haaland, do povo Laguna Pueblo, se tornou a primeira mulher indígena eleita governadora de um estado norte-americano. Na Califórnia, Xavier Becerra bateu Steve Hilton, candidato endossado por Trump, e será o primeiro governador latino do estado em mais de 150 anos. E, no Texas, a democrata e latina Gina Hinojosa derrotou o governador republicano Greg Abbott.
Diante disso, o que fez o presidente? O de sempre. Terceirizou a responsabilidade, como é praxe entre autocratas. Na noite da eleição, escreveu na Truth Social que não estava na cédula e que, se estivesse, os republicanos teriam vencido “de lavada”. E disse não gostar de considerar o resultado uma derrota para ele, já que não estava na cédula.
I wasn’t on the Ballot and if I was, we would have won IN A LANDSLIDE! Thank you for your attention to this matter. President DONALD J. TRUMP
( TS: Nov 3 2026, 10:37 PM ET ) https://t.co/sZG6BGvmsL
— Commentary Donald J. Trump Truth Social Posts On X (@TrumpTruthOnX) November 4, 2026
Percebendo que as pesquisas de opinião estavam certas e que a maioria do país não gosta dele, o que indica a forma como deve ser lembrado na História, ele passou um recibo do tamanho do Alasca. Porque foi ele mesmo quem pediu que a eleição fosse sobre ele.
Trump passou boa parte do último mês voando a bordo do Air Force One para estados republicanos com a missão de pedir aos apoiadores que “fingissem” que ele estava na cédula. A população fez exatamente isso. Fingiu que era ele. E votou contra.
Quase metade dos eleitores ouvidos numa pesquisa de boca de urna disse que uma das razões do voto foi manifestar oposição a Trump. A culpa, claro, é dos candidatos ruins, da Fox News, do clima. De tudo, menos dele.
Nós, brasileiros, conhecemos bem esse filme: um certo ex-presidente também passou anos culpando urna eletrônica, Supremo, imprensa, vacina e “sistema” por tudo o que dava errado. Autocratas não perdem por seus erros, são traídos.
O que uma pessoa ególatra, desmedida na autopercepção de sua imagem pública, pode fazer com a caneta mais poderosa do mundo nas mãos nos próximos dois anos?
Um presidente em fim de mandato ou sem maioria no Congresso costuma ser chamado de “pato manco”. Mas Trump não é manco e sim um pato ferido. E bicho ferido pode não recuar, mas atacas.
Sem a aprovação do Legislativo, ele tende a dobrar a aposta no que pode fazer sozinho: decretos, tarifas, pressão sobre instituições, aventuras militares, guerras comerciais movidas a birra.
O Brasil já sentiu na pele o que é um tarifaço com motivação política. Imagine o que vem pela frente. Não serão só os democratas no Congresso norte-americano que terão trabalho. O resto do mundo também terá.
Porque, entre um ego ferido e uma caneta sem limites, quem costuma pagar a conta não é o dono do ego. Pode dar trabalho conter Donald.