‘Desabonadora’: professores da Unifesp detonam passagem de Weintraub pelo MEC

Abraham Weintraub. Foto: Agência Brasil

“O desempenho de Abraham, porém, vai além de uma má gestão, caracterizando-se por declarações ofensivas à dignidade da universidade pública, por chacotas que suscitaram suspeita de racismo, por ameaças de teor antidemocrático a instituições republicanas, por ataques depreciativos a fundadores da pedagogia moderna, como Paulo Freire, em profundo desrespeito à Educação, à universidade pública e aos servidores das universidades federais de todo o Brasil”, diz um dos trechos da moção de repúdio aprovada pela Congregação da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios nesta sexta, 7, com 18 votos favoráveis, 7 contrários e 6 abstenções.

Leia a íntegra do documento:

“A saída do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub do governo foi tão atabalhoada e deletéria para a educação brasileira, o interesse público e os valores republicanos quanto sua desastrosa passagem pela pasta que comandou por 14 meses. Investigado no Supremo Tribunal Federal por suposta prática de racismo, em inquérito aberto pelo ministro Celso de Mello, Weintraub anunciou sua exoneração em vídeo de poucos minutos, ao lado do Presidente Jair Bolsonaro, publicado em 18 de junho, quinta-feira.

Sem prestar contas de sua gestão, comprometeu-se, porém, a realizar a transição dos assuntos da Pasta ao sucessor, como é a praxe e como exige a mínima seriedade e compromisso com a coisa pública. Surpreendentemente, porém, na manhã do sábado, dia 20, o ministro e sua família desembarcaram em Miami, em operação suspeita aos olhos do sub-procurador geral do Tribunal de Contas da União, Lucas Furtado, que requisitou apuração sobre possível fraude no episódio e sobre o envolvimento no Itamaraty. A desconfiança do órgão de controle foi despertada pelo fato de a exoneração ter sido anunciada no dia 18 de junho e publicada no Diário Oficial em edição extraordinária apenas no dia 20, poucas horas depois do desembarque do então ex-ministro e posteriormente retificada no dia 23 de junho. Supõe-se que o Ministro tenha usado das prerrogativas do cargo para a realização de viagem oficial e entrada nos Estados Unidos já estando exonerado, embora sem formalização.

Simultaneamente ao anúncio da demissão, o governo brasileiro comunicou que Weintraub seria indicado para posto no Conselho de Diretores Executivos do Banco Mundial. A passagem do economista pelo ministério foi tão desabonadora, porém, que em menos de 24 horas, por iniciativa da ONG de Direitos Humanos Conectas, foram reunidas 13 mil assinaturas em uma petição dirigida à Diretoria do Banco Mundial e às embaixadas dos países que fazem parte do grupo do Brasil na instituição, cujo teor pode ser avaliado pela seguinte passagem: “Ajude-nos a pressionar o Banco Mundial a não aceitar a nomeação de Abraham Weintraub como diretor executivo do Brasil. Ele é um inimigo público da educação e não fez nada de positivo durante seu mandato. Não podemos permitir que ele deixe o governo e receba um cargo em uma importante instituição internacional”. No dia 24 de junho, foi divulgada outra carta, desta vez assinada pela Associação dos Funcionários do Banco Mundial, dirigida ao Conselho de Ética da entidade, pedindo a suspensão de sua nomeação até que a investigação sobre suas declarações racistas seja concluída.

Não surpreende, portanto, que personalidades de diversas áreas, ligadas à educação, à ciência, ao jornalismo, tenham vindo a público externar a avaliação de que Abraham Weintraub foi o pior ministro da educação da história do Brasil. Assim pronunciaram-se, por exemplo, Priscila Cruz, presidente-executiva da ONG Todos pela Educação, Rafael Parente, ex-Secretário de Educação do Distrito federal, Maria Luiza Sussekind, 1ª Secretária da ANPED (Associação nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), e a jornalista Miriam Leitão, entre outros.

A gestão desastrosa de Weintraub, rigorosamente analisada no Manifesto “Não nos Representa”, assinado por 193 docentes da Unifesp e apoiado por 1.047 profissionais da educação de todo o país (https://naonosrepresenta.wixsite.com/naonosrepresenta, não pode deixar de merecer o repúdio do colegiado supremo da escola à qual o ex-ministro encontra-se vinculado, sob pena de omissão e complacência.

O desempenho de Abraham, porém, vai além de uma má gestão, caracterizando-se por declarações ofensivas à dignidade da universidade pública, por chacotas que suscitaram suspeita de racismo, por ameaças de teor antidemocrático a instituições republicanas, por ataques depreciativos a fundadores da pedagogia moderna, como Paulo Freire, em profundo desrespeito à Educação, à universidade pública e aos servidores das universidades federais de todo o Brasil.

Por todos esses motivos, em defesa dos valores democráticos, republicanos, da educação respeitosa e plural, do pensamento crítico fundamental à pesquisa científica, apresentamos esta moção repudiando a gestão de Abraham Bragança de Vasconcelos Weintraub no Ministério da Educação”.

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