Desde 1996 não se come tão pouca carne no Brasil

Carrinho de compras tem ficado mais vazio diante da alta nos preços de itens da cesta básica, como as carnes. Crédito: Fernando Madeira

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual:

O consumo de carne bovina no Brasil sofreu uma queda histórica em 2020, com a elevação do preço da carne e a dificuldade de se ter renda durante a crise sanitária de covid-19. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que, no ano passado, o consumo da proteína animal foi de 29,3 quilos por habitante. O menor patamar em 25 anos, desde 1996, quando a série histórica teve início.

O consumo de 2020, segundo os dados, representa ainda uma queda de 5% em relação a 2019, quando 30,7 quilos de carne bovina foram consumidos pelos brasileiros. Naquele ano, o patamar já havia recuado 9% em relação ao ano anterior.

De acordo com o diretor técnico do Dieese, Fausto Augusto Júnior, a queda no consumo está relacionada à alta no preço da carne bovina. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o valor da proteína chegou a subir 25% em 2020, segundo a entidade. E até 30% em regiões mais pobres, como o Nordeste. O que não acompanhou a perda de renda da população brasileira, que viu a crise econômica ser agravada com a pandemia e a taxa de desemprego bater recorde, superando os 14 milhões de pessoas sem emprego.

E a perspectiva é que os preços da carne de boi continuem em alta, enquanto o consumo interno deve continuar em queda, principalmente com o fim do auxílio emergencial.

Retrocesso de décadas

“Isso tudo vai colocando um conjunto de dilemas para as famílias que, de alguma forma, precisam escolher entre o que comprar e o que não comprar com a pouca renda disponível que têm. E um dos itens que se acaba, de certo modo, abrindo mão, substituindo de alguma forma ou simplesmente deixando de comprar, é a carne bovina”, comenta Fausto à jornalista Maria Teresa Cruz, na coluna do Dieese do Jornal Brasil Atual.

Quem mais sofre com o aumento nos preços são os mais pobres do país. Os dados do Conab mostram que a população chegou a consumir 42,8 quilos por habitante. O ponto mais alto da série atingido em 2006, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na comparação com o consumo do ano passado, houve uma redução, portanto, de 13,5 quilos por habitante.

“Ou seja, de certo modo, a alta e a redução do consumo da carne no Brasil vai mostrando como o nosso país começa a regredir em algo bastante essencial que é a própria alimentação”, aponta o diretor técnico do Dieese. “Estamos regredindo algo em torno de 30 anos do ponto de vista do consumo. Isso significa que estamos voltando a patamares do começo dos anos 90, final dos anos 80. Lembrando que esse período foi um momento de crise econômica acentuada no Brasil e de perda da renda do conjunto dos trabalhadores. E era uma época também em que a inflação fazia parte da vida dos brasileiros”, acrescenta.

Negócio para o agro é a exportação

Diferente do início dos anos 90, Fausto observa que os brasileiros assistem hoje não a uma perda do controle inflacionário, mas sim a uma elevação de preços muito acima da média da inflação de alguns itens da cesta básica. Principalmente os que estão ligados à exportação. Isso explica, segundo ele, o porquê do agronegócio, apesar ter um lobby no Congresso Nacional, benefícios econômicos e de desoneração, e até apoio do ponto de vista de acesso a crédito subsidiado, ainda assim optar pelo mercado internacional em detrimento do nacional.

A proteína animal nesse caso, como ele destaca, está basicamente organizada para a exportação a grandes mercados. Entre eles o da China, Europa e até parte dos Estados Unidos.

“E uma vez que se tem toda essa produção para a exportação, o preço acaba sendo relacionado ao dólar. E como a taxa de câmbio subiu, estamos com uma taxa acima de R$ 5,30, o produtor rural no Brasil, o criador de gado, a empresa de produção de proteína animal, eles optam por exportar ao invés de manter o produto no Brasil. Inevitavelmente, pela lei da oferta e demanda, acaba que o produto tem uma alta de preço muito acima inclusive da média da inflação”, comenta.

A reportagem da BBC News Brasil também consultou especialistas, ligados ao setor da agropecuária, que apontaram a previsão de que os preços das carnes devem permanecer pressionados pelo menos até a metade de 2022.

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