“Desistimos”: o relato da mulher que há 15 dias espera o resultado do teste do coronavírus do irmão. Por Charles Nisz

Laboratório médico. Foto: Reprodução/Secretaria Estadual de Saúde

“Meu irmão espera o resultado de exame de coronavírus há 15 dias. Desistimos de telefonar”

No dia 20 de março, Débora Damasceno procurou o Hospital Presidente – o irmão estava com falta de ar após dois dias com sintomas de gripe. “Ele é asmático, mas ficamos assustados quando o salbutamol (remédio antiasma) não fez efeito e ele continuou com falta de ar”, conta ela.

Vendedor em uma loja de música, o paulistano de 31 anos acredita ter sido contaminado por um cliente do Acre, o que denota transmissão comunitária – aquela ocorrida dentro do país.

“Esperamos por muitas horas até a realização do exame de raspagem da garganta, usado no diagnóstico do Covid-19”, conta Débora. O médico pediu ainda exames laboratoriais e uma tomografia computadorizada.

Conforme o hospital, o responsável pelo exame seria o Instituto Adolfo Lutz, uma instituição pública, com prazo de quatro dias para o resultado ficar pronto. “Após o dia 24 de março, ligávamos todos os dias e não tivemos resposta. Depois de uma semana, cansamos de ligar, pois o hospital não tinha o resultado do exame”.

Segundo Débora, o irmão passou uma semana sem apetite, sem sentir gosto da comida, com muitas dores no corpo e cansaço. Não teve febre alta, o principal sintoma causado pelo Covid-19. “Ao contrário, mesmo com 36°C de temperatura, ele estava apático e indisposto”.

“Uma vez que não tínhamos resposta nem do Hospital Presidente e nem do Adolfo Lutz, tomamos os devidos cuidados em casa para que ele não infectasse meu pai, já idoso, e também pedi ao meu ex-marido que cuidasse dos meus dois filhos (de 13 e 8 anos). Assim estamos desde então: isolados em casa e sem resposta alguma a respeito do exame…”, lamenta Débora.\

Por que isso acontece? Em 03 de abril, o Brasil tinha ao menos 30 mil testes de coronavírus à espera do resultado. Isso é o triplo dos casos confirmados da doença no país. A falta de testagem maciça – que permitiu o controle da doença na Coreia do Sul – e a demora nas análises dos exames já feitos. Esses dois problemas tornam mais difícil dimensionar o tamanho do surto no Brasil.

A Anvisa aprovou mais de 10 novos tipos de testes para detectar o Covid-19. Eles demoram de 15 minutos (picada no dedo para coleta de sangue) ou até 7 dias (coleta da mucosa do nariz e da faringe com um cotonete).

De acordo com o Observatório Covid-19, que reúne 7 universidades brasileiras e estrangeiras para monitorar a doença, dizem que a tendência de queda no contágio pode não ser verdadeira, dada a imensa subnotificação.

Em São Paulo, epicentro da doença no Brasil, há 3000 casos confirmados. No entanto, outros 16 mil exames aguardam resultado. Do total de exames feitos na semana entre 21 e 28 de março em São Paulo, apenas 0,4% foi liberado. Sem medidas precisas de quantos pacientes estão contaminados, o país trava uma guerra às cegas contra o Covid-19.

O Brasil continua sem uma medida precisa do nível de contaminação por coronavírus. Ao contrário dos países europeus, da Coreia do Sul e dos EUA, que recentemente adotaram a testagem em massa, o Brasil contabiliza apenas os pacientes em UTIs e mortos após internação para medir a quantidade de infectados.

Assim, pacientes assintomáticos, casos leves, e mesmo os mortos sem terem passado por hospitais não são contabilizados como infectados pelo Covid-19. Uma falha em formulário do Ministério da Saúde aumentou essa subnotificação. No documento do ministério, só há as opções “estive no exterior” e “tive contato com alguém com os sintomas”. Um paciente com sintomas leves fica fora dessa contagem.

O monitoramento do InfoGripe, sistema da Fundação Oswaldo Cruz, mostra aumento de 10 vezes no número de internações por síndrome aguda respiratória grave em comparação com o ano de 2019. Isso indicaria que as infecções por Covid-19 estariam subnotificadas em 90%. Ou seja, o Brasil teria 10 vezes mais casos que o indicado pelo Ministério da Saúde.

O tempo dirá, só não pode demorar tanto tempo assim, pois o enfrentamento da doença depende de agilidade e de um retrato preciso da tragédia.

“Meu irmão espera o resultado de exame de coronavírus há 15 dias. Desistimos de telefonar”, diz Débora. Ele provavelmente teve a doença, mas ainda está fora da estatística.

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