“Desmoronamento dos bolsonaristas nas eleições municipais é bofetada em Bolsonaro”, diz imprensa francesa

Desmoronamento bolsonarista, segundo o jornal francês Libération

“Desmoronamento dos bolsonaristas e a emergência de uma nova esquerda”, destaca o jornal francês Libération dos resultados das eleições às prefeituras no Brasil.

“Apenas quatro candidatos apoiados pelo presidente de extrema direita passaram do primeiro turno”, observa. “Uma bofetada em Jair Bolsonaro”.

A publicação francesa diz que “a maioria (9 de 13) dos candidatos apoiados pelo presidente do Brasil comeram poeira nas eleições municipais de domingo”.


Na visão do jornal, foram vítimas do próprio discurso: “Em menos de dois anos, a ‘nova política’ da qual se reivindicava essa onda de ultradireita ganhou um aspecto de velha, marcada pelas mesmas práticas politiqueiras e de corrupção que haviam descreditado o ‘sistema’”.

Um dos resultados mais emblemáticos para a publicação da queda bolsonarista foi o do Rio de Janeiro. “Se ele ainda é popular em escala nacional, Jair Bolsonaro o é cada vez mais menos nas capitais dos estados, e principalmente no seu bastião político, o Rio de Janeiro”.

“Seu próprio filho Carlos foi reeleito na Câmara Municipal, mas com muito menos votos do que na eleição passada”, contrasta.

“Para a prefeitura da ‘cidade maravilhosa’, é um cacique da centro-direita, Eduardo Paes, ex-prefeito entre 2009 e 2017, que ficou amplamente à frente no primeiro do turno do impopular atual prefeito Marcelo Crivella (direita evangélica)”.

Outro fenômeno, ainda mais emblemático segundo a reportagem, é a dupla oposição a Jair Bolsonaro e o derradeiro quarto lugar de seu candidato em São Paulo.

“É em São Paulo, capital econômica e maior metrópole do país que Jair Bolsonaro amargou a derrota mais severa. Aqui, quase metade da população julga seu governo ruim ou péssimo. E seu candidato, Celso Russomano, ficou apenas em quarto lugar (10,5%). E pior, o segundo turno será disputado por dois de seus oponentes: de um lado o prefeito Bruno Covas e, do outro, o líder dos sem-teto, Guilherme Boulos, sobre o qual se concentrou o essencial do voto anti-Bolsonaro”.

Nova esquerda

Para o Libération, a nova esquerda corresponde à emergência do PSOL e outros partidos, em substituição ao PT. “A ascensão de Boulos, apresentado como um novo Lula, é um sério revés para o partido do ex-presidente, que governou três vezes a megalópole brasileira. Seu candidato, o terno Jilmar Tatto, obteve menos de 9% dos votos, o pior resultado do PT desde 1988. Uma ‘nova esquerda’ emerge assim nas urnas, liderada pelo PSOL, dissidência do PT que vai enfrentar a direita em Belém, ou ainda pela comunista Manuela D’Avila, que vai para o segundo turno em Porto Alegre (sul), de fato com o apoio do PT”.

Ao PT, caberão segundo a publicação as cidades médias “para se reconstruir”.

A reportagem observa uma fragmentação da extrema direita em diversos partidos, o que “dispersou os votos”. Alerta no entanto para os riscos futuros: “A composição das novas câmaras municipais nas 5.564 cidades do país pode reservar más surpresas”.

A ascensão dessa nova esquerda também foi tema de reportagens televisivas nos últimos dias nos canais Arte e France24, que destacaram o aumento das candidaturas femininas, negras e indígenas, fato inédito face à tradição de candidatos brancos. “Os negros brasileiros enfim ajudados para entrar na política. A maioria dos brasileiros se sentirá representada”, diz o canal de TV franco-alemão Arte, em referência às cotas estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal.

Num país onde grandes cidades conhecem um vento de novidade, com o voto ecologista, a exemplo de Marselha, onde foi eleita a primeira mulher, médica, esquerdista, Michèle Rubirola, depois de décadas de governos de direita, o desejo de um horizonte político progressista ganha ares internacionais. Olha-se para as cidades também esperando um sinal promissor para 2022, ano das próximas eleições presidenciais.

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